19 janeiro, 2026

A capacidade de reduzir a realidade a um tamanho administrável

Pois é. Cheguei aqui.

Há um ponto, depois desse trajeto torto, em que a liberdade deixa de ser acumular possibilidades. Ela passa a ser outra coisa, mais silenciosa e difícil de explicar: a capacidade de fechar quase todas as portas sem ressentimento. Não por medo, nem por derrota, mas porque o excesso já não diz nada.

O mundo continua ali, aberto, ruidoso, chamando pra dança, seduzindo, disponível e ainda assim perde o apelo. Não quero mais o grito dos outros, das multidões fantasiadas.

Querer ficar só com alguém, nesse momento, não é o oposto da anarquia relacional que sempre vivi. É sua continuação lógica quando a curiosidade se esgota. Nunca foi sobre manter tudo aberto para sempre, mas sobre não se submeter a formas impostas. Quando o mundo deixa de ser interessante, condensar não é recuo: é consequência.

Não se trata de precisar de alguém para existir. Isso seria dependência, carência, medo do vazio, não é o que acredito. O que aparece aqui é outra coisa: a vontade de habitar. Habitar um corpo conhecido, silêncios confortáveis compartilhados, um café calmo, uma bebedeira ridícula, viagens cansativas, um olhar de soslaio que diz mais que qualquer palavra. Uma presença que não exige explicação nem administração. Não para completar o que falta, mas para repousar no que sobra.

Depois de atravessar tantas pessoas, ideias e desejos, o gesto mais radical talvez não seja abrir mais uma porta, mas reconhecer que poucas bastam. E que, às vezes, a forma mais honesta de liberdade é parar.

Já disse uma vez e continuo a gritar: preciso, desesperadamente, de silêncio.


...eu não posso me permitir ser amado se o preço for alguém deixar de viver algo que queira viver.