19 junho, 2026

Todo suicida voa

Antônio percebeu que estava morto às 15h30 de um ensolarado dia de fevereiro. Sentado em seu aconchegante escritório, em frente a uma ampla janela de onde divisava prédios até onde a vista alcançava, divagava diante do computador, concedendo-se um pequeno momento de folga. A constatação de sua condição não seria realmente uma surpresa caso tivesse percebido mais atentamente o rumo que sua vida havia tomado; era uma dedução óbvia que agora aflorava em sua mente.


Nascido em uma pequena cidade do interior de São Paulo e, logo cedo, começou a perceber que havia algo de diferente na forma como enxergava o mundo. Parecia que algo nele não funcionava muito bem. Nascera sem intensidade, com um amortecimento estranho em sua capacidade de sentir. Sentia-se alheio a tudo o que excitava seus colegas e assim foi durante toda a sua vida. Isso não significa que não fosse feliz, apenas parecia que via as coisas em cores mais fracas, a vida em um volume mais baixo.


Tentou alinhavar sua realidade, sentir-se pertencente. Cultivou o hábito de fazer uma extenuante e minuciosa análise diária de todas as suas reações e das atitudes que despertavam nos outros. Cada noite, ao deitar a cabeça no travesseiro, revisava todo o seu dia e as interações ocorridas. Fazia associações sobre as causas e efeitos, tentando formular um padrão que desse uma certa tranquilidade para antever o que poderia esperar de cada um. Era uma tarefa difícil, pois sua primeira tentativa havia sido mensurar o mundo pelas suas próprias reações – e fora desastrosa. Ninguém reagia de acordo com o que, para ele, era óbvio. Os valores e sentimentos de todos que o cercavam pareciam-lhe absurdos e dificilmente seguiam o tão almejado padrão.


Desde cedo, percebera que era um pouco diferente de seus colegas. As sensações o afetavam de forma distinta e ele sentia uma enorme dificuldade em compreender e, consequentemente, antever as reações de qualquer um. Isso o colocava em algumas situações difíceis e não foi nenhum espanto quando se recolheu em uma postura tímida e afastada, procurando interferir o mínimo possível com aquelas pessoas que o assustavam.


Ao contrário do que esperava, o tempo não amenizou em nada sua situação — pelo contrário. Como continuava sem entender, a realidade parecia algo distante e da qual não participava. Sentia que estava em outro mundo, havia entorpecido. Não percebia o interesse nas coisas que impressionavam todos os outros. Na adolescência, conseguiu alguns momentos fugazes de compartilhamento quando descobriu o álcool e as drogas. Porém, logo após as longas noites, juntamente com a ressaca moral, voltava ao seu angustiante estado normal.


Não compreendia os ensinamentos da universidade, não via o mínimo sentido na religião e, em cada dia de cada um de seus empregos, não via a mínima utilidade em nada que produzia. Com o tempo, não conseguia distinguir entre o que era sonho e o que era realidade; os dois estados se tornaram algo único. Tudo era envolto pela mesma substância leitosa e aquosa, os dias aconteciam devagar e difusamente.


Mas o que mais atormentava Antônio não era essa falta de fronteira entre o real e o imaginário. O que realmente o preocupava era a noção da ausência total e completa de sentimentos. Até o mínimo de ideologia que chegou a cultivar na adolescência não conseguiu manter. Com o tempo, percebeu que todas eram tão desnecessárias e ridículas quanto qualquer outra.


Com o tempo, alcançou a não almejada solidez de uma vida financeiramente produtiva. Simbiotizou-se a uma cadeira de marca, no meio de uma sala em um triste e despersonalizado apartamento que, nem chique nem marginal demais, espelhava sua total entrega à realidade dos outros. Começou a acreditar na televisão e parou de fumar e beber.


Por toda a sua vida, Antônio desprezou os livros. Não entendia a razão de ler a vida e as experiências de outros; seria como ler a sinopse de um filme, estragaria a surpresa de vivê-las ele próprio. Mas agora, os antes desprezados livros eram devorados pela monotonia que consumiu sua vida; afinal, acostumara-se a viver a vida alheia.


A constatação de sua morte o levou a acender um cigarro, dar umas três longas baforadas e deixar a brasa em um tamanho e excitação desejáveis, antes de obrigá-la a beijar seu pulso. Ficou com o cigarro cravado na pele por um tempo que pareceu eterno; o cheiro de pele queimando coçou seu nariz, mas somente isso: não sentiu nada, absolutamente nada. Não chorou nem sorriu.


Então tirou o cigarro do braço e resolveu ir almoçar, não porque tivesse fome, mas simplesmente porque os ponteiros do relógio se alinharam na autoritária postura de meio-dia. Antigamente, repudiava qualquer mecanismo marcador de tempo, nunca havia possuído um; hoje percebe ser submisso a ele.


Não estava triste quando percebeu que, no caminho do almoço, seus pés inconscientemente rumaram para um belo edifício ao qual nunca havia reparado e que fazia parte do seu cotidiano. O prédio sempre esteve em seu caminho, fazia parte de sua história muito antes de que ele se desse conta, mas nunca o havia reparado. Hoje, sua atenção havia sido roubada pela construção um pouco antes de estar à sua frente, assim que o enorme prédio preencheu a sua vista. Não pensou, não chegou sequer a reduzir a velocidade. Apenas, em um rápido movimento de noventa graus, entrou pela porta.


Nem essa mudança de rotina o preocupou; continuou com a mesma indiferença de antes, não cogitou respostas, pois não alimentou nenhuma dúvida. Sentia firmemente que apenas estava indo para algum lugar, independentemente de qual. Galgou as escadas, dispensando o elevador. Não existia pressa, apenas a ausência de tempo. Subiu bem devagar e chegou a uma porta de ferro que, ao que parecia, não era aberta havia séculos. No ranger da porta, o vento e o sol cingiram seu rosto.


Agora, parado no alto do edifício, ele começa a pensar. Mas nada de pesado passa por sua cabeça; tudo é muito claro e tranquilo. Não cogita a ideia de escrever algum bilhete, não deve satisfação a ninguém. Além do que não saberia o que escrever, não estava precisando de nada, nem de atenção. Não estava sofrendo, estava apenas cansado. Lúcida e tranquilamente, havia decidido que queria parar. Então pulou a barra de metal que o separava do precipício, inclinando o corpo.


É quando começou sua descida.


As coisas aconteciam mais devagar do que havia imaginado. Seus pés descolaram do parapeito assim que seu corpo ficou paralelo ao chão. Tentou manter um pouco aquela postura enquanto caía, mas não era fácil. Queria sentir aquela imensa massa de ar acelerando enquanto batia em seu corpo, mas esse mesmo fluxo do vento tornava a posição impossível. Deixou então seu corpo tomar uma postura mais natural e ficou de cabeça para baixo. A nova posição o deixou ainda mais confortável; ele queria velocidade e a conseguiu. Começou a olhar as pessoas pelas janelas, todos invertidos em sua realidade que, agora, fazia sentido. Conseguiu ver apenas que alguns moradores inadvertidos notaram sua presença e, imaginou, deviam ir até a janela assustados, tentando confirmar o que viram, mas era muito rápido: não conseguiu acompanhar mais do que um fragmento de cada andar.


Ficou difícil manter os olhos abertos quando tentou focar o chão: era muito vento. Então resolveu fechá-los. Pensou se conseguiria voltar à posição paralela inicial. Não para reduzir a velocidade — ele gostava dela —, apenas para sentir mais o vento e talvez controlar a posição do ponto de impacto. Começou a torcer o corpo, bem devagar. A pressão do vento aumentava, não conseguia ouvir nada além do enorme barulho nos ouvidos. Continuou o movimento suavemente. Enfim, quando conseguiu colocar seu corpo inteiramente paralelo ao chão, o vento cessou de bater em seu peito, porém continuou incrivelmente forte em sua cabeça, como se não tivesse mudado de posição, como se ainda continuasse a cair paralelamente ao prédio. Resolveu então abrir os olhos e se assustou com o que viu. A rua, ao invés de chegar cada vez mais perto, passava corrida imediatamente embaixo do seu corpo.


Antônio não caía mais: percorria a rua feito uma flecha. Finalmente, depois de uma vida de entorpecimento, sentiu alguma coisa e sorriu. Resolveu então fazer mais uma experiência e entortou ainda mais o corpo, forçando a cabeça mais para o alto. Começou a ganhar altura.


O dia seguinte estampava as capas de jornais sensacionalistas com a notícia de um delírio coletivo, no qual várias pessoas diziam ter avistado um homem voando em direção ao poente. Quando perguntadas sobre como esse homem se parecia, diziam que ele passou muito rápido e a única coisa que conseguiram captar foi o barulho de uma ininterrupta e alta gargalhada, que continuou a ser ouvida até desaparecer de vista.


06 maio, 2026

Alpendre a beira-mar

Bastião tinha 52 anos quando resolveu começar os cálculos. Físico-matemático de formação, sempre morou em cidades grandes e trabalhava praticamente todas as horas de todos os dias de sua existência, vida que tinha um gosto metálico e um cheiro de poluição lavada em olhos lacrimejantes. Gostava de livros, mas não conseguia tempo para ler, então eles se amontoavam, empilhados em todos os ambientes, sem nunca serem abertos.

Sua mente científica não entendia a humanidade.

Ao visitar o litoral, encantava-se com a natureza retomando seu lugar. Olhava com admiração as casas construídas à beira do mar sendo devoradas pelas ondas, gradualmente, bem devagar. Com a testa colada no vidro do carro, sonhava com um mundo sem humanos, onde tudo voltaria a ser belo e razoável.

De volta à sua casa, começou a fazer as contas. Mapeou o litoral brasileiro inteiro, verificou terrenos à venda e sua distância do mar, identificou onde havia interrupções naturais e por onde o mar avançaria.

Foram meses de cálculos exaustivos. Noites em claro, madrugadas inteiras diante de planilhas, equações e mapas. Eram variáveis demais: a erosão costeira, a previsão de elevação do nível do mar, as correntes, os ventos, a composição do solo em cada trecho. Era uma conta quase infinita, mas Bastião não desistia. Até que, numa madrugada silenciosa, ao fechar o último algoritmo, os números lhe deram uma certeza inescapável: uma data e um ponto no mapa. Ele então fechou os livros, guardou a calculadora e, pela primeira vez na vida, sentiu que não havia mais nada a provar. Pediu demissão, vendeu tudo o que tinha na cidade e se aposentou do mundo que nunca compreendera.

Comprou um terreno onde havia uma casa extremamente simples, mas pé na areia, como chamavam as casas cujo terreno dava direto no mar, sem empecilhos. Encheu a casa com os livros, e o mobiliário passou a ser formado, principalmente, pelo empilhamento deles.

A casa tinha um alpendre, onde todas as noites ele ficava contemplando o mar até dormir. Sentado em uma poltrona antiga e surrada, adorava ouvir o marulho enquanto encostava a cabeça no pelego morno que trouxera consigo. O vento salgado entrava fundo em seus pulmões e enchia sua cabeça de lembranças.

E assim ele esperou. Década após década, com a paciência de quem já não media o tempo pelos relógios da cidade, mas pelas marés e pelo avanço lentíssimo da linha d’água. Vivia em rotina e solidão, lia os livros de sua interminável biblioteca, ruminava a própria vida e o movimento do mar, que, extremamente vagaroso, teimoso em sua certeza geológica, se aproximava da casa a cada ano. 

Torrão por torrão, tijolo por tijolo, o mar retomava seu espaço, indiferente a qualquer vontade humana. Homens ricos tentavam detê-lo, atiravam pedregulhos, cimento, arames, sacos de areia. Por um instante, reafirmavam sua arrogância. Mas era sempre passageiro: o mar, cedo ou tarde, vinha lembrar-lhes de sua insignificância.

As ondas agora lambiam os pilares da varanda. A areia invadia o quintal. Bastião, porém, não se mexia. Até que, numa noite com a maior lua que já havia visto, sentiu a água fria tocar seus pés descalços. Não se assustou. Apenas fechou os olhos já baços e dormiu uma última vez. Seu suspiro final foi dado no exato momento em que uma onda levantou-o, cessando todo tipo de peso e gravidade e, num afago gentil, carregou-o dali.




 

03 fevereiro, 2026

Quando batem na porta em uma noite chuvosa em uma cabana no meio do mato

A cada clarão que incidia sobre minhas pálpebras fechadas, seguia-se o estrondo mais próximo de um trovão. Revolvi-me no leito, atento ao ritmo insistente da chuva no telhado. O vento atrevido uivava, forçando entrada pelas frestas da velha casa de madeira, um som que, paradoxalmente, me serenava. O ar carregado impregnava-me: odor de madeira lavada e cansada de sol, de teias, de umidade, de séculos estagnados que dançavam com lufadas renovadas. Eu não dormia, não por falta de relaxamento, mas por estar entregue ao conforto da minha própria solidão, naquela distância minha entre outras gentes.

No limiar do sono, no intervalo entre os estrondos, um ruído seco destacou-se. Virei-me, abri os olhos na penumbra e escutei. O silêncio se prolongou, até que, inquestionável, o som retornou, batidas. Golpes secos na porta, como ossos antigos a ecoar na madeira, espaçados por uma pausa que denotava uma paciência ancestral. Não havia relógios que marcassem a hora, mas a escuridão me dizia ser alta madrugada.

Acendi uma vela e desci as escadas rangentes da casa eterna cobrindo as espaldas com o cobertor. Não estava com medo, curioso talvez, mas por alguma razão não temia o que chegava. Pousei a vela e a caixa de fósforos em uma mesinha e abri a porta que gemeu, sofrendo em suas dobradiças teimosas. Sem pedir permissão, a escuridão veio de fora e inundou o mundo. Uma trovoada desenhou, por um instante, o contorno de um visitante silencioso à minha porta.

Alguém grande, envolto em um cheiro de tabaco e suor, usando um chapéu. Ele ergueu um cigarro preto de palha, apagado. Compreendi. Risquei o fósforo, e a luz violou a noite. A chama amarelada colidiu com aquele rosto de couro queimado de sol, desenhando sulcos eternos em um contraste melancólico. Era um velho senhor, cuja idade não consegui definir, parecia ter vivido a soma da vida de todos que já conheci. Aproximei a chama da ponta de seu cigarro. Ele então me fitou, debaixo do chapéu encharcado, com olhos de fogo. Lentamente, abriu um semisorriso que parecia mostrar que sabia mais de mim do que eu mesmo e congelou meu tempo.

Num instante, uma torrente de lembranças invadiu-me: o pôr do sol às 22h30 em Finisterra, aquele mesmo que aplaudi em São Thomé das Letras e vi nascer a quilômetros de qualquer alma viva, no topo do Pico da Bandeira, onde chorei em gargalhadas delirantes, uivando para o mar de nuvens que cobria a imensa ausência de qualquer pessoa. Vi-me vagueando perdido com uma garrafa de vinho na mão, pelas praias de Tenerife, alheio ao rumo de casa. Lembrei das viagens que fiz de carro, moto, bicicleta, ônibus, a pé, de barco, de carona, tanto no banco quanto na carroceria de caminhão. De um concerto de música clássica dentro do Castelo de Praga. Do som da gaita tocada acampado no topo do Morro da Baleia, na Chapada dos Veadeiros, e na Serra do Cipó.

O velho ainda não havia tragado. O fósforo queimava entre nós, a chama indecisa. Seus olhos não se moviam.

Ele puxou a primeira baforada. A brasa iluminou suas maçãs do rosto. E novas imagens vieram: do mergulho nas águas geladas das cachoeiras do Caraça. Das curvas sinuosas até o fim da Carretera Austral. Das orelhas queimadas pelo vento frio no Cebreiro e do sal no nariz nas Ilhas Ballestas. Da noite em que dormi no topo de uma cachoeira inexplorada, apenas com um saco de dormir sob o protesto de revoadas de andorinhas, sendo acordado por uma lua tão luminosa quanto o sol. Do andar à esmo no Salar de Uyuni, onde morri de frio, olhando o céu mais estrelado que já vi no deserto. Das salsichas no centro de La Paz, do churrasquinho aos pés de Machu Picchu, do sobá em Campo Grande, do pulmão de vaca em Bogotá e do ceviche em Lima, tudo degustado em barracas de rua, meu ritual de verdadeira descoberta.

O velho soltou a fumaça lentamente. Ela subiu, enrolou-se no chapéu, dissolveu-se na noite molhada. Ele não disse nada. A brasa do cigarro ardia como um olho pequeno.

Ele tragou de novo, mais fundo. E veio o resto: do café da manhã gratuito para peregrinos em Santiago de Compostela. Da missa gregoriana numa igreja semissubterrânea em Vega de Valcarce, e do descanso em conventos milenares sob tetos de antigas igrejas. Do banheiro a céu aberto com vista para o topo do Monte Roraima, da travessia da Venezuela onde quase não consegui voltar de Isla Margarita. Das comidas mais estranhas e deliciosas, entranhas preparadas num típico churrasco argentino em Buenos Aires, cabeça de cordeiro em Cajatambo e os tradicionais calçots catalães num aniversário nas montanhas mágicas que cercam Barcelona e que escondem antigas igrejas e mosteiros onde andei à noite em campos de bruxas e colhi aspargos selvagens em campos de alecrim. Da escorregadela no gelo e neve para chegar a uma lagoa belíssima e mirar de perto o cume do Cerro Castillo, e da trilha de Huayhuash, na Cordilheira Branca, sem guia, carregando todo o meu equipamento. Da chuva forte ao desembarcar em Cabo Polônio e do blues em Punta del Diablo. Da travessia de 200 km de praias desertas, tomando águas insalubres até chegar à fronteira do Uruguai, onde dormi em faróis abandonados, um deles onde o guarda travava uma luta diária e inglória contra a areia que tomava tudo. Dos dias passados num veleiro, subindo a costa brasileira e entendendo, finalmente, a profundidade que significa a cor azul-marinho.

O cigarro já estava meio consumido. A chuva lá fora aumentara.

E quando a última imagem se dissipou, deixando apenas um eco de azul no fundo dos olhos, voltei a mim. A vela ainda tremulava. O velho ainda estava ali. Com uma nostalgia imensa, voltei a fitar aqueles olhos e aquele sorriso. Era isso. Em seu rosto estava claro que ele sabia de tudo, de tudo aquilo e muito mais. Levou o indicador à aba do chapéu num gesto breve de anuência, agradecendo. E partiu. Olhei enquanto ele era engolido pela escuridão, o cigarro protegido pela aba do chapéu.


19 janeiro, 2026

A capacidade de reduzir a realidade a um tamanho administrável

Pois é. Cheguei aqui.

Há um ponto, depois desse trajeto torto, em que a liberdade deixa de ser acumular possibilidades. Ela passa a ser outra coisa, mais silenciosa e difícil de explicar: a capacidade de fechar quase todas as portas sem ressentimento. Não por medo, nem por derrota, mas porque o excesso já não diz nada.

O mundo continua ali, aberto, ruidoso, chamando pra dança, seduzindo, disponível e ainda assim perde o apelo. Não quero mais o grito dos outros, das multidões fantasiadas.

Querer ficar só com alguém, nesse momento, não é o oposto da anarquia relacional que sempre vivi. É sua continuação lógica quando a curiosidade se esgota. Nunca foi sobre manter tudo aberto para sempre, mas sobre não se submeter a formas impostas. Quando o mundo deixa de ser interessante, condensar não é recuo: é consequência.

Não se trata de precisar de alguém para existir. Isso seria dependência, carência, medo do vazio, não é o que acredito. O que aparece aqui é outra coisa: a vontade de habitar. Habitar um corpo conhecido, silêncios confortáveis compartilhados, um café calmo, uma bebedeira ridícula, viagens cansativas, um olhar de soslaio que diz mais que qualquer palavra. Uma presença que não exige explicação nem administração. Não para completar o que falta, mas para repousar no que sobra.

Depois de atravessar tantas pessoas, ideias e desejos, o gesto mais radical talvez não seja abrir mais uma porta, mas reconhecer que poucas bastam. E que, às vezes, a forma mais honesta de liberdade é parar.

Já disse uma vez e continuo a gritar: preciso, desesperadamente, de silêncio.


...eu não posso me permitir ser amado se o preço for alguém deixar de viver algo que queira viver.