Bastião tinha 52 anos quando resolveu começar os cálculos. Físico-matemático de formação, sempre morou em cidades grandes e trabalhava praticamente todas as horas de todos os dias de sua existência, vida que tinha um gosto metálico e um cheiro de poluição lavada em olhos lacrimejantes. Gostava de livros, mas não conseguia tempo para ler, então eles se amontoavam, empilhados em todos os ambientes, sem nunca serem abertos.
Sua mente científica não entendia a humanidade.
Ao visitar o litoral, encantava-se com a natureza retomando seu lugar. Olhava com admiração as casas construídas à beira do mar sendo devoradas pelas ondas, gradualmente, bem devagar. Com a testa colada no vidro do carro, sonhava com um mundo sem humanos, onde tudo voltaria a ser belo e razoável.
De volta à sua casa, começou a fazer as contas. Mapeou o litoral brasileiro inteiro, verificou terrenos à venda e sua distância do mar, identificou onde havia interrupções naturais e por onde o mar avançaria.
Foram meses de cálculos exaustivos. Noites em claro, madrugadas inteiras diante de planilhas, equações e mapas. Eram variáveis demais: a erosão costeira, a previsão de elevação do nível do mar, as correntes, os ventos, a composição do solo em cada trecho. Era uma conta quase infinita, mas Bastião não desistia. Até que, numa madrugada silenciosa, ao fechar o último algoritmo, os números lhe deram uma certeza inescapável: uma data e um ponto no mapa. Ele então fechou os livros, guardou a calculadora e, pela primeira vez na vida, sentiu que não havia mais nada a provar. Pediu demissão, vendeu tudo o que tinha na cidade e se aposentou do mundo que nunca compreendera.
Comprou um terreno onde havia uma casa extremamente simples, mas pé na areia, como chamavam as casas cujo terreno dava direto no mar, sem empecilhos. Encheu a casa com os livros, e o mobiliário passou a ser formado, principalmente, pelo empilhamento deles.
A casa tinha um alpendre, onde todas as noites ele ficava contemplando o mar até dormir. Sentado em uma poltrona antiga e surrada, adorava ouvir o marulho enquanto encostava a cabeça no pelego morno que trouxera consigo. O vento salgado entrava fundo em seus pulmões e enchia sua cabeça de lembranças.
E assim ele esperou. Década após década, com a paciência de quem já não media o tempo pelos relógios da cidade, mas pelas marés e pelo avanço lentíssimo da linha d’água. Vivia em rotina e solidão, lia os livros de sua interminável biblioteca, ruminava a própria vida e o movimento do mar, que, extremamente vagaroso, teimoso em sua certeza geológica, se aproximava da casa a cada ano.
Torrão por torrão, tijolo por tijolo, o mar retomava seu espaço, indiferente a qualquer vontade humana. Homens ricos tentavam detê-lo, atiravam pedregulhos, cimento, arames, sacos de areia. Por um instante, reafirmavam sua arrogância. Mas era sempre passageiro: o mar, cedo ou tarde, vinha lembrar-lhes de sua insignificância.
As ondas agora lambiam os pilares da varanda. A areia invadia o quintal. Bastião, porém, não se mexia. Até que, numa noite com a maior lua que já havia visto, sentiu a água fria tocar seus pés descalços. Não se assustou. Apenas fechou os olhos já baços e dormiu uma última vez. Seu suspiro final foi dado no exato momento em que uma onda levantou-o, cessando todo tipo de peso e gravidade e, num afago gentil, carregou-o dali.

