Antônio percebeu que estava morto às 15h30 de um ensolarado dia de fevereiro. Sentado em seu aconchegante escritório, em frente a uma ampla janela de onde divisava prédios até onde a vista alcançava, divagava diante do computador, concedendo-se um pequeno momento de folga. A constatação de sua condição não seria realmente uma surpresa caso tivesse percebido mais atentamente o rumo que sua vida havia tomado; era uma dedução óbvia que agora aflorava em sua mente.
Nascido em uma pequena cidade do interior de São Paulo e, logo cedo, começou a perceber que havia algo de diferente na forma como enxergava o mundo. Parecia que algo nele não funcionava muito bem. Nascera sem intensidade, com um amortecimento estranho em sua capacidade de sentir. Sentia-se alheio a tudo o que excitava seus colegas e assim foi durante toda a sua vida. Isso não significa que não fosse feliz, apenas parecia que via as coisas em cores mais fracas, a vida em um volume mais baixo.
Tentou alinhavar sua realidade, sentir-se pertencente. Cultivou o hábito de fazer uma extenuante e minuciosa análise diária de todas as suas reações e das atitudes que despertavam nos outros. Cada noite, ao deitar a cabeça no travesseiro, revisava todo o seu dia e as interações ocorridas. Fazia associações sobre as causas e efeitos, tentando formular um padrão que desse uma certa tranquilidade para antever o que poderia esperar de cada um. Era uma tarefa difícil, pois sua primeira tentativa havia sido mensurar o mundo pelas suas próprias reações – e fora desastrosa. Ninguém reagia de acordo com o que, para ele, era óbvio. Os valores e sentimentos de todos que o cercavam pareciam-lhe absurdos e dificilmente seguiam o tão almejado padrão.
Desde cedo, percebera que era um pouco diferente de seus colegas. As sensações o afetavam de forma distinta e ele sentia uma enorme dificuldade em compreender e, consequentemente, antever as reações de qualquer um. Isso o colocava em algumas situações difíceis e não foi nenhum espanto quando se recolheu em uma postura tímida e afastada, procurando interferir o mínimo possível com aquelas pessoas que o assustavam.
Ao contrário do que esperava, o tempo não amenizou em nada sua situação — pelo contrário. Como continuava sem entender, a realidade parecia algo distante e da qual não participava. Sentia que estava em outro mundo, havia entorpecido. Não percebia o interesse nas coisas que impressionavam todos os outros. Na adolescência, conseguiu alguns momentos fugazes de compartilhamento quando descobriu o álcool e as drogas. Porém, logo após as longas noites, juntamente com a ressaca moral, voltava ao seu angustiante estado normal.
Não compreendia os ensinamentos da universidade, não via o mínimo sentido na religião e, em cada dia de cada um de seus empregos, não via a mínima utilidade em nada que produzia. Com o tempo, não conseguia distinguir entre o que era sonho e o que era realidade; os dois estados se tornaram algo único. Tudo era envolto pela mesma substância leitosa e aquosa, os dias aconteciam devagar e difusamente.
Mas o que mais atormentava Antônio não era essa falta de fronteira entre o real e o imaginário. O que realmente o preocupava era a noção da ausência total e completa de sentimentos. Até o mínimo de ideologia que chegou a cultivar na adolescência não conseguiu manter. Com o tempo, percebeu que todas eram tão desnecessárias e ridículas quanto qualquer outra.
Com o tempo, alcançou a não almejada solidez de uma vida financeiramente produtiva. Simbiotizou-se a uma cadeira de marca, no meio de uma sala em um triste e despersonalizado apartamento que, nem chique nem marginal demais, espelhava sua total entrega à realidade dos outros. Começou a acreditar na televisão e parou de fumar e beber.
Por toda a sua vida, Antônio desprezou os livros. Não entendia a razão de ler a vida e as experiências de outros; seria como ler a sinopse de um filme, estragaria a surpresa de vivê-las ele próprio. Mas agora, os antes desprezados livros eram devorados pela monotonia que consumiu sua vida; afinal, acostumara-se a viver a vida alheia.
A constatação de sua morte o levou a acender um cigarro, dar umas três longas baforadas e deixar a brasa em um tamanho e excitação desejáveis, antes de obrigá-la a beijar seu pulso. Ficou com o cigarro cravado na pele por um tempo que pareceu eterno; o cheiro de pele queimando coçou seu nariz, mas somente isso: não sentiu nada, absolutamente nada. Não chorou nem sorriu.
Então tirou o cigarro do braço e resolveu ir almoçar, não porque tivesse fome, mas simplesmente porque os ponteiros do relógio se alinharam na autoritária postura de meio-dia. Antigamente, repudiava qualquer mecanismo marcador de tempo, nunca havia possuído um; hoje percebe ser submisso a ele.
Não estava triste quando percebeu que, no caminho do almoço, seus pés inconscientemente rumaram para um belo edifício ao qual nunca havia reparado e que fazia parte do seu cotidiano. O prédio sempre esteve em seu caminho, fazia parte de sua história muito antes de que ele se desse conta, mas nunca o havia reparado. Hoje, sua atenção havia sido roubada pela construção um pouco antes de estar à sua frente, assim que o enorme prédio preencheu a sua vista. Não pensou, não chegou sequer a reduzir a velocidade. Apenas, em um rápido movimento de noventa graus, entrou pela porta.
Nem essa mudança de rotina o preocupou; continuou com a mesma indiferença de antes, não cogitou respostas, pois não alimentou nenhuma dúvida. Sentia firmemente que apenas estava indo para algum lugar, independentemente de qual. Galgou as escadas, dispensando o elevador. Não existia pressa, apenas a ausência de tempo. Subiu bem devagar e chegou a uma porta de ferro que, ao que parecia, não era aberta havia séculos. No ranger da porta, o vento e o sol cingiram seu rosto.
Agora, parado no alto do edifício, ele começa a pensar. Mas nada de pesado passa por sua cabeça; tudo é muito claro e tranquilo. Não cogita a ideia de escrever algum bilhete, não deve satisfação a ninguém. Além do que não saberia o que escrever, não estava precisando de nada, nem de atenção. Não estava sofrendo, estava apenas cansado. Lúcida e tranquilamente, havia decidido que queria parar. Então pulou a barra de metal que o separava do precipício, inclinando o corpo.
É quando começou sua descida.
As coisas aconteciam mais devagar do que havia imaginado. Seus pés descolaram do parapeito assim que seu corpo ficou paralelo ao chão. Tentou manter um pouco aquela postura enquanto caía, mas não era fácil. Queria sentir aquela imensa massa de ar acelerando enquanto batia em seu corpo, mas esse mesmo fluxo do vento tornava a posição impossível. Deixou então seu corpo tomar uma postura mais natural e ficou de cabeça para baixo. A nova posição o deixou ainda mais confortável; ele queria velocidade e a conseguiu. Começou a olhar as pessoas pelas janelas, todos invertidos em sua realidade que, agora, fazia sentido. Conseguiu ver apenas que alguns moradores inadvertidos notaram sua presença e, imaginou, deviam ir até a janela assustados, tentando confirmar o que viram, mas era muito rápido: não conseguiu acompanhar mais do que um fragmento de cada andar.
Ficou difícil manter os olhos abertos quando tentou focar o chão: era muito vento. Então resolveu fechá-los. Pensou se conseguiria voltar à posição paralela inicial. Não para reduzir a velocidade — ele gostava dela —, apenas para sentir mais o vento e talvez controlar a posição do ponto de impacto. Começou a torcer o corpo, bem devagar. A pressão do vento aumentava, não conseguia ouvir nada além do enorme barulho nos ouvidos. Continuou o movimento suavemente. Enfim, quando conseguiu colocar seu corpo inteiramente paralelo ao chão, o vento cessou de bater em seu peito, porém continuou incrivelmente forte em sua cabeça, como se não tivesse mudado de posição, como se ainda continuasse a cair paralelamente ao prédio. Resolveu então abrir os olhos e se assustou com o que viu. A rua, ao invés de chegar cada vez mais perto, passava corrida imediatamente embaixo do seu corpo.
Antônio não caía mais: percorria a rua feito uma flecha. Finalmente, depois de uma vida de entorpecimento, sentiu alguma coisa e sorriu. Resolveu então fazer mais uma experiência e entortou ainda mais o corpo, forçando a cabeça mais para o alto. Começou a ganhar altura.
O dia seguinte estampava as capas de jornais sensacionalistas com a notícia de um delírio coletivo, no qual várias pessoas diziam ter avistado um homem voando em direção ao poente. Quando perguntadas sobre como esse homem se parecia, diziam que ele passou muito rápido e a única coisa que conseguiram captar foi o barulho de uma ininterrupta e alta gargalhada, que continuou a ser ouvida até desaparecer de vista.