11 Novembro, 2009

Estou indo de volta pra casa...

21 Outubro, 2009

...do que infesta e não pode ser removido...



Não adianta, por mais que eu durma, acordo sempre mais cansado do que quando fui me deitar. Isso já acontece há vários dias, me sinto apodrecendo. Pelo menos consegui me afastar daquele trabalho idiota e inútil, agora posso dormir de 15 a 20 horas por dia.

Acabei de levantar e vim tomar o meu banho eterno, a sujeira da rua não sai facilmente. Sei que tenho anos de rua acumulados apesar de não por o pé na pra fora desde que consegui minha dispensa: suor, restos de pele minha e de outras pessoas, salivas, bafos, chuvas, cerveja, porra, catarro, merda, urina, esse ar imundo e esse infinito número de doenças. Passo álcool pelo meu corpo todo, quero me desinfetar. Já não sinto mais dor nos genitais quando faço isso, devo estar me acostumando. Olho para a garrafa de álcool e tomo um grande gole, sei que a sujeira me invade por todos os orifícios.

Agora, no banheiro esfumaçado pelo vapor d'água do chuveiro quente, olho o espelho embaçado tentando me identificar. Vejo o vulto borrado, apenas sei que sou eu porque ele segue meus movimentos. Passo a toalha de rosto no vidro e, mesmo assim, não consigo me reconhecer do outro lado. Para onde fui?

Olho meus cabelos crespos e enormes revoltos de cama, a barba de meses que se confunde com os pelos do peito que, por sua vez, é uma massa única e uniforme com o resto do meu corpo. Não passo de um animal coberto de pelos da cabeça aos pés. Os meus olhos e boca são pontos pequenos nessa névoa escura a que me converti.

A minha garganta arde pelo gole de álcool, abro a boca e me aproximo do espelho, preciso ver os germes morrendo. É quando percebo um movimento estranho no meu rosto, parece que todos os meus pelos estão se mexendo. Aproximo-me e vejo uma quantidade infinita de pequenos seres que povoam o meu corpo. Passeiam pelo mar escuro, submergem e vêm à tona. O asco toma conta de mim, mesmo com o banho quente, praticamente fervendo, e o álcool, permaneço imundo. Pego a navalha em um ato instintivo e começo o procedimento.

Inicio nervosamente pelos pés, tiro os pequenos pelos dos dedos. Vou ao peito do pé e, sem usar sabão em momento algum, subo pelas pernas causando diversos sangramentos. Isso não me importa. O que me dá mais trabalho é a virilha, meu ânus e as costas, onde uso de um contorcionismo que não sabia que possuía. Finalizo com a barba e cabelo e me admiro no reflexo. Ainda falta algo! Com a prática adquirida no resto do corpo, não encontro dificuldade e me livro rapidamente das sobrancelhas.

Agora sim. Jogo a garrafa de álcool por cima da minha pele lisa, a ardência é impressionante devido aos inúmeros machucados. Respiro fundo, finalmente me sinto livre.

Consigo esboçar um sorriso para o espelho, que não dura muito. O movimento que antes habitava meus pelos, agora cobrem meu corpo inteiro. Enojado, só percebo que havia pegado a navalha após já ter feito uma enorme incisão em minha testa e, arrancando a pele com as mãos, deixado um alvo crânio começar a surgir.





18 Setembro, 2009

Sinuca

Ela arrumava as bolas na tradicional forma triangular sobre a flanela verde enquanto eu pedia uma cerveja no balcão.
- Por que essa mesa de sinuca parece tão estranha? - Pergunta rodeando a mesa com o dedo indicador raspando levemente a borda de madeira.
- São oficiais. Bem maiores que as de boteco que está acostumada, as caçapas também.
Ela se posiciona para iniciar o jogo.
- Parece ser bem mais difícil jogar nessa mesa.
- Por que você não é como todo mundo? Eu não entendo isso.
- Como assim?
- Porra! Toda mulher que vê uma mesa oficial de sinuca acha que é muito mais fácil de jogar, as bolas parecem insignificantes perto das caçapas, dá a impressão de ser muito mais simples enfiá-las nos buracos. Você deveria comentar isso comigo e eu, assumindo a postura de macho conhecedor e experiente em assuntos boêmios, falaria em tom de revelação: "Mas não é! Todo mundo tem essa impressão. É tão difícil, se não mais, do que as mesas pequenas". Você nem deu a chance de me exibir. Por que você não raciocina como todo mundo?
- Simplesmente porque não parece ser mais fácil, a mesa é enorme. Mas e as caçapas? São maiores realmente ou só aparentam?
- Não faço a mínima ideia, mas que parecem, parecem.
- Você também tem algumas manias bem irritantes.- Ela me fala em tom impertinente. - Você nunca muda sua opinião. Parece que tem ideologias arraigadas que jamais serão derrubadas. Não importa quais argumentos e rumos tomem a conversa, sua postura será inflexível. Quer coisa mais irritante?
- Para isso eu tenho uma boa explicação. Todas as minhas teorias e concepções foram construídas em cima de minhas impressões e não o contrário. Eu sei que determinada teoria é correta por instinto, então, com o tempo, encontro os argumentos para sustentá-la. Por isso, mesmo quando me contradizem, sei que os argumentos existem, mesmo que ainda não os tenha óbvios.
- Besteira! Não me convence. Pra mim tudo isso são firulas para enfeitar uma realidade que é bem simples: Você não tem coragem para admitir que está errado e mudar de opinião, por isso possui a sensação que está correto mesmo sem ter argumentos para sustentar sua versão. Isso é ignorância.


....Pausa para uma profunda reflexão do nosso herói.


- Caralho!!! E não é que você tem razão?

13 Agosto, 2009

Pura e simplesmente, aparência.

Estou a disposição da moça, a mercê de sua vontade, é só dar qualquer deixa que me apaixono. Ainda bem que ela não quer.

06 Agosto, 2009

Pedra n'água é Patchibum!!!

Esse chão parece tão gostoso. Aperto com a mão, mas ele escapa entre os dedos, levo o que resta à minha boca, é crocante, porém o gosto não é bom. Tento cuspir, só consigo babar. Acho que a areia nunca mais sairá da minha língua!

É engraçado ver meu pai, ele faz cada som esquisito com a boca. Pega essas coisinhas redondas desse chão fofo e joga-as na água, não na água de beber que mora dentro da mamadeira, naquela água enorme e gelada que corre entre as árvores e que ele gosta de colocar meus pés.

O meu pai chama minha atenção até que eu o olhe, nunca me viro da primeira vez. Ele precisa se esforçar, afinal tudo em volta é tão interessante! Faz o movimento com a mão repetidamente, com gestos bem marcados antes de soltar a pedrinha. Ao lançá-la, faz uma trajetória longa, difícil de acompanhar, e cai n'água fazendo um barulho engraçado. Junto com o som meu pai fala: "Patchibum".

Minha cabeça fica remoendo essa palavra: Patchibum. Ela faz cócegas na minha cabeça quando percebo que é o mesmo som que a pedra faz n'água.

Tento pegar uma pedrinha também, mas não é tão fácil quanto pensei, meus dedos são pequenos e ela é escorregadia. Finalmente consigo. Imito o mesmo movimento do meu pai, porém a pedra não faz o mesmo caminho, ela sobe e cai direto na minha cabeça!

-"Patchibum" - Falo enquanto jogo mais uma, talvez seja uma palavra necessária para que a pedra atinja a água. Nada! De novo na minha cabeça.

Acho que meu pai percebe e, esticando aqueles braços enormes e elásticos que ele tem, me carrega do jeito divertido e, me fazendo de avião, me coloca sentada em uma pedra grande pra servir de cadeira. Os meus pés ficam dentro da água. Assusto-me a princípio, está muito gelada e penso em chorar. Não entendo essa insistência de meu pai em colocar meu pezinhos ali, mas então penso que aqui, pertinho, na beirinha da água, consigo fazer patchibum.

Pego uma pedrinha e jogo. - Patchibum - E não é que dá certo? Ela quica em minha cabeça e mergulha com o barulho engraçado dentro d'água. Fico tão feliz que solto uma gargalhada.

- Patchibum, Patchibum, Patchibum - Jogo várias pedrinhas consecutivamente dentro da água berrando patchibum cada vez mais alto, isso é muito divertido.

Meu pai me olha todo orgulhoso e, na esperança de que eu o imite como fiz com o Patchibum, dispara a falar:

- Papai, pai, papai. Fala papai. pai Papai papai. Papapapapapa papai. Falaaaa.

Resolvo olhar pra ele, as vezes o coitadinho merece um pouco da minha atenção. Encaro aqueles olhos enormes e sorrio. Abro a boca e falo:

- Pa, pa... patchibum.

Ele tá pensando o que? As coisas não serão tão fáceis quanto ele pensa.

31 Julho, 2009

Nem mercado livre tem!!!!

Atenção pessoal!!! Estou vendendo cisticercos (ovos de Tênia) a preços módicos. Pra que se preocupar com regimes absurdos???? Tênia é a solução!!! toda aquela caloria incômoda, aquela gordura indesejável, deixe para a Tênia!! Emagreça sem esforço e sem ter que comer menos. E o melhor, completamente orgânico.

Obs. Infelizmente os cisticercos podem se dirigir ao cérebro pois atravessam a barreira encefálica, mas quem se interessar pelo anúncio garanto que não vai sentir diferenças significativas.

26 Julho, 2009

Pai... estás ferrado comigo!

15 Julho, 2009

Km

O dizer era algo perigoso, a língua buscava espaços que minhas palavras não preenchiam em tua boca e, assim, o verbo desenfreado podia externar minhas vergonhas desprovidas de consentimento. O ver-te doía, foi quando a beleza começou a me machucar.

Então foi melhor calarmos distâncias para que o peito tivesse espaço suficiente para respirar novamente.

11 Julho, 2009

De volta. Cansado, feliz, diferente, 10 kg mais magro, cabeludo, barbudo (pelo menos até onde minha genética permite) e pronto pra fazer merda de novo. Tem gente que não aprende.

Ainda não tenho muito definido em minha mente do porquê voltei, porque não abandonei tudo e construi uma cabana em finisterre. De qualquer forma, estou de volta.


26 Abril, 2009

Conjugação

E não me venham falar em felicidade, meus camaradas! Não são eu e, por isso, não tem muito a pesar. Aqueles que não são eu nunca passaram por tardes vagarosas deitados naquele colo nú onde eu virava meu rosto propositalmente e roçava minha boca e nariz em mamilos rosados, tão frescos e ao mesmo tempo tão perigosos. Um colo quente pelo sexo recém feito, mais aconchegante que o mais perfeito paraíso que já pude imaginar.

É uma pena que se possa falar em felicidade no presente por tão breve tempo. É uma palavra que busca ser associada, desesperada e melancolicamente, a verbos passados.

Mas vocês se enganam, caso me invejem, está mais perto do inferno aquele que de mais alto caiu.

16 Abril, 2009

Família Brasileira

Era mais uma daquelas noites quentes nessa cidade perdida no meio do centro oeste. Eu vinha de algum canto escuro e enfumaçado da cidade e rumava para casa, ébrio como sempre. Áureos tempos em que não era necessário se preocupar em dirigir nesse estado.
Nessas noites que quase emendavam com o dia e nada de mais interessante havia acontecido nas árduas buscas por qualquer resquício de emoção diferente, eu costumava voltar por um caminho onde as prostitutas ficavam a espera de clientes. Sabia que sempre sobravam umas poucas drogadas procurando carona para qualquer lugar em troca de uma trepada. Ainda não existiam os desgraçados e baratos moto-táxis que estragaram esse glorioso e degradante bálsamo que me acalmava e me permitia dormir.
Óbvio que a esta hora e nesta situação, somente sobravam as mulheres mais deterioradas e desesperadas, mas nunca fui de escolher muito. Nem sempre era assim, algumas vezes uma agradável surpresa saia do fundo daquelas empesteadas vielas escuras.
Passei devagar pelas ruas, com o fim da noite elas iam sendo sugadas pelas sombras e se misturavam cada vez mais a paisagem de concreto e ferro que as cercavam. Se não prestasse muita atenção não conseguia vê-las. Em uma esquina vi um vulto que me chamou a atenção, era uma garota muito bonita e bem vestida. Fiz minha proposta descaradamente, sabia que tanto elas quanto eu odiávamos rodeios hipócritas e que só nos fazem perder tempo. Entrou no carro e conversamos algumas trivialidades, fiquei sabendo que havia trabalhado a noite inteira e, como praticamente todas as meninas daquela região, era viciada em zuca, uma droga muito forte que vem do resto da cocaína após a purificação, algo similar ao crack. Convidei-a para ir a minha casa ou teríamos que trepar no carro mesmo, pois não possuía dinheiro para ir ao motel, nem mesmo aos mais vagabundos que ali abundavam. Como ela não tinha pressa para voltar para, seja la qual for, sua origem, para lá fomos. Trepamos, tomamos algumas cervejas, conversamos, trepamos, conversamos e ela acabou dormindo por ali mesmo. De manhã acordei-a para levá-la embora, precisava trabalhar e de jeito nenhum a deixaria sozinha por ali. Um filho da puta reconhece outro e, mais de uma vez, as pessoas que considerei mais inocentes, me ferraram com gosto. Disse que não precisava levá-la, pegaria um ônibus por ali mesmo. Não insisti.
Naquele mesmo dia, enquanto almoçava no meu restaurante de costume, assistia ao noticiário sem prestar muita atenção. Uma mulher aos prantos contava a história de sua filha desaparecida há alguns meses e implorava por notícias, já que a polícia não estava dando a mínima. Vi que carregava uma foto que navegava fora das bordas do aparelho, pois mexia muito com as mãos enquanto falava. Quando aproximaram a foto da garota pude reconhecê-la apesar de estar um pouco mais nova e sem o sorriso sacana que não saiu do seu rosto o tempo inteiro em que esteve comigo. O número para contato apareceu abaixo da foto. Olhei para o telefone do balcão em um rompante de compaixão, mas logo desisti da idéia. Voltei ao meu filé com fritas pensando: "que merda que está virando a família brasileira".

20 Março, 2009

com cheiro e gosto de sangue, suor, alcool e cigarro.

28 Janeiro, 2009

Geralmente a gente semo uma merda, mas as vezes, as vezes, semo foda

16 Janeiro, 2009

Porta na cara

E nao me venha com essa ausencia descarada. Nem com esse ultimo escarrar de palavras encerrando minha resposta com um bater de porta na cara. Isso é coisa de casal, algo que nao somos mais.
Nao adianta sair pisando firme, nem franzir o cenho e amarrar esse bico na cara (apesar de ficar linda com ele). Voce nao me odeia por causa dos meus pensamentos. Voce me odeia porque ve sentido neles, os entende. Voce é fabricada pela mesma logica, a mesma materia racional e insensivel que constituem minha falta de crença. Entao o que voce odeia é a propria sensação de que, mesmo nao querendo, algo se encaixa no meio desse monte de improperios que vomito a torto e a direito.
É quando se esconde, tenta nao pensar muito no assunto. Leva a vida em buracos cheios de pessoas desinteressantes e futeis, preenche seu tempo fugindo da propria forma de pensar, entra na multidão tentando se perder no meio de algum templo gigantesco e esnobe. Mas sente que, beeeeem la no fundo, tua mente nao te deixa em paz.
Sinto muito mas voce nunca vai conseguir correr o suficiente para fugir do seu proprio raciocinio, por mais imbecis que jogue em sua cama. E é isso que te mata, é isso que você odeia, é isso que te rouba o sono a noite.

Na verdade voce nao me odeia, voce se odeia ao perceber que é como eu.

29 Dezembro, 2008

Então é Natal

Jingle Bells, ou algo assim. Luzinhas, árvores e um pedófilo de vermelho. Chegava a época consumista, aquele período que, junto com o fim de ano, são os mais deprimentes, pois nos obrigam a sermos felizes e, justamente por isso, nos mostram o quanto somos miseráveis. Só sei que era véspera de natal e o passaria sozinho novamente. Morrendo de pena de mim mesmo, resolvi fazer uma boa ação e me livrar das moedinhas que guardava em uma lata velha que ficava em cima do meu guarda roupas. Peguei-as todas e enfiei-as em um saco vermelho, mais papai noel que isso impossível. Era um saco pequeno e eu havia juntado muitas moedas, então o pedaço de pano ficou estufado, devia haver mais de R$ 50. Dei um nó na ponta e sai com aquele trambolho na mão, não cabia no bolso.
Saí do prédio e olhei em volta, ninguém. Caminhei um pouco pelo canteiro central da avenida logo em frente. Sabia que não precisaria ir muito longe para encontrar um indigente. Mais um pouco e lá estava ele, sentado no chão, entretido em contar algumas pequenas tampas de refrigerante em sua mão.

- E aí?

Ele continuava completamente compenetrado, nem me deu bola. Resolvi insistir.

- Amigo!

Ele fechou a mão protegendo as tampinhas e me olhou com uma cara de aborrecido. Parecia que o estava incomodando no meio de uma ação muito importante.

- Amigo o caralho. Que tu qué?
- Hei, calma aí. Quero te dar uma ajuda. - Tilintei o saco vermelho na frente dele.
- Mmmmm. Manda aí.

Joguei. Ele, em um movimento impressionante pela sua condição, agarrou o pesado objeto no ar e começou a inspecioná-lo. Jogou as moedas junto com as tampinhas de garrafa, olhou por um breve momento e guardou tudo de volta no saco.

- Uau. Camaradinha, tu realmente tá precisando de ajuda.
- Hein? Eu já tô indo amigo, se diverte aí e toma tuas cachaças.
- Mas tu é mesmo muito prepotente né?
- O que eu te fiz? Acabei de te dar um puta presente e você me vem com um monte de ofensas?
- Chegado, tu tá muito iludido. Essa história de altruísmo não existe. Nada acontece sem haver algum motivo, alguma troca. O que você está fazendo não tem nenhum outro alvo a não ser você mesmo. Esse é o problema de vocês todos, estão com o nariz tão empinado que não conseguem ver nada além do céu. Não existe nada mais prepotente e egoísta que a caridade. Você precisava ver a cara de satisfação do povo do abrigo quando me deram um banho, me cortaram o cabelo e barba na última vez que fui lá. Nossa! Como eles achavam que estavam me fazendo bem. Quase vomitei com tanta presunção. Vocês não tem a competência de enxergar nem um milímetro adiante do próprio ego. Quando eu falei que deveriam me agradecer por deixar que eles fizessem aquilo comigo, me colocaram pra fora. Por isso nosso pessoal não gosta de ir lá.

- Até que te entendo.
- Será? Isso que você fez teve algum motivo, geralmente vocês tentam comprar uma consciência limpa. Nós não representamos nada mais que seus sonos tranquilos à noite.
- Tá, tá, concordo contigo. Eu tenho noção dessa podridão toda.
- Bom, voltando as moeditas. Não te incomoda que eu gaste tudo isso aqui em cachaça?
- Na verdade importa, sim.
- Tenho todo o direito de receber sua caridade, desde que me comporte igual a você?
- Não doido, calma. Me incomoda por que não me convidou.
- Hahahahaha! Ok, Playboy, bóra beber.

Saímos da avenida principal e começamos a andar por becos. Chegamos a uma espelunca que tinha uns três gatos pingados, isso já contando com o dono do bar. Devia conhecer meu acompanhante pois, de cara, nos encheu dois copos da cachaça mais vagabunda que eu já experimentei.

Tomamos umas cinco doses em silêncio, rezando nossa prece de retirada. Nada mais prático do que a bela fuga da realidade que o sagrado álcool nos concede. Compramos ainda um barrilzinho de plástico com pinga e açúcar, nunca tinha visto aquilo antes. Ele me falou que é específico pra alcoólatras, muito prático e barato. Ele chamava o recipiente carinhosamente de "corotinho" e o abraçava como se fosse um bebê. Eu já estava completamente bêbado quando ele me intimou:

- Paga aí, playboy.
- O caralho! Já te dei toda minha grana.
- Não vai me dizer que esse saco de moedas é toda tua grana?
- É.
- Você é um miserável. Faz quanto tempo que tá juntando essas moedas?
- Sei lá. Uns três anos, eu acho. Seguinte! Meu dinheiro é extorquido antes mesmo que eu consiga colocar minhas mãos nele e...

Comecei a olhar preocupado em volta. A voz começou a sumir dos meus lábios e voltei a enfiar minha cara no fundo do copo.

- Chora playboy, continua chorando. Conta aí, não pára não.
- Posso não. Vai que alguém escuta essa conversa. Tá cheio de gente mau caráter por aí que fica gravando a conversa dos outros pra usar contra na primeira oportunidade. Se aproveitam que você está relaxado em um ambiente familiar, calmo e pessoal, registram tudo, deturpam e te transformam no pior dos canalhas.
- Tu é paranóico, é? Que papo é esse? Não tem ninguém por aqui!
- Meu amigo, se você tivesse passado o que eu já passei, não confiaria em ninguém.
- Eu não confio em ninguém. Tu tá bêbado, meu amigo relaxa, aqui você pode falar o que quiser sem ninguém te julgar, aliás, pelo menos isso ainda podemos fazer, pensar o que quiser, sem ter que dar satisfação a alguém.
- Aí que você se engana camarada, já cai nessa. Tô falando, idéias diferentes assustam, principalmente esses malditos conservadores hipócritas, acostumados ao calor aconchegante da ausência de pensamentos.
- Isso eu sei, a famosa "benção da ignorância".
- É, a comodidade da estagnação.
- Mas gravar conversas é ridículo. Como eu disse, você tá paranóico.
- Ridículo é, mas...

Então reparei em um homem de paletó encostado na porta que me olhava de soslaio e anotava algo em uma caderneta. Fiquei agitado, com medo.

- É isso, preciso ir embora.

Arranquei o "corote" do camarada, dei um adeus tonto e saí trôpego em direção a minha casa ao som do meu ex-amigo bêbado que me xingava pelo roubo da bebida. Pelo menos eu achava que era a direção da minha casa. A última frase que escutei foi "Paranóico filho da puta".

Segui então pela noite escura, não percebendo o vulto de paletó que acendeu um cigarro, saiu do bar e começou a, sorrateiramente, seguir os meus passos.

Nunca mais voltei pra casa.

JigleN bells.

11 Dezembro, 2008

Íntimo

Carta antiga sem resposta.

Em determinadas noites, quando presenças estrangeiras, que por algum motivo não posso assediar, invadem minha casa, eu cedo minha alcova solitária e o colchão virgem.
Nessas noites, geralmente quentes ou frias demais (pois eu, cuspido morno nessa vida, já tive meu impossível tempo de extremos), quando corre a lua no céu imenso que enfeita minha pequena janela, pego o velho colchão que habita embaixo da minha cama e o jogo no chão do quarto abandonado, e lá ele fica, amassado entre os móveis do espaço exíguo. Deixo-o nu e deito-me naquela vala antiga, deformada na espuma por corpos pesados em sonos difusos nas manhãs lentas de tempos passados. Dias preguiçosos onde tua presença, fugida da universidade, abria meu portão com um barulho nostálgico que me acordava feliz. Teu vulto, talhado no sol que entrava pelos vidros da sala, invadia minha cama pelo pé, levantava minha coberta e se aninhava, quente de rua, em meu peito sonolento. De pés trançados fodíamos o mundo.

E então, algumas vezes nessas noites, deitado no colchão sujo de nós dois, eu lembro.

16 Novembro, 2008

Da brevidade das marcas de um corpo

...e foi então que ela veio me falar sobre coisas breves e também sobre outras duradouras, discorreu sobre o que é pequeno e grande. Medidas que aprendemos quando crianças, cuja noção perdemos no decorrer do tempo. Inicialmente tudo é eterno e enorme, conforme crescemos a mediocridade e brevidade nos acostumam, nos fazem ficar entorpecidos e não mais nos damos conta da real magnitude das coisas.

Ela me disse que, com o espírito viciado e podre, perdemos completamente a percepção das medidas. Como imergimos na pequenez, a adotamos como grandeza e a brevidade como duradoura. Vemos sofrimento e felicidade em nosso insignificante cotidiano, vivemos esperando a aposentadoria, uma pensão, um bônus no fim de mês, uma trepada ou uma gravidez de fim de semana. Me disse que, para ela, houve um tempo que se deparou com algo grande e eterno, e que o susto do despertar foi imenso. Foi quando conseguiu ver todo futuro e passado de uma vez só, como realmente são. Perdeu todas as certezas e dogmas e então caiu em um transe profundo de um absolutismo antes impensável. Contou que a maioria tenta alcançar tal estágio entrando em religiões e partidos políticos, mas ela o conseguiu em toda a sua verdade e plenitude.

Ela me falou sobre coisas pequenas, coisas simples, algo como manchas de pele e tatuagens, enfim, coisas que duram pouco. Mas ela me falou também da grandeza de outras coisas, que não duram apenas a brevidade de uma vida.

Foi então que ela se calou, me entregou uma carta e um livro, virou e então gravou eternamente em minha memória os tristes sons daqueles passos indo embora.

13 Setembro, 2008

Mia Couto

"Vantagem de um estranho é que confiamos essa mentira de termos uma só alma."


Esse escritor é uma das melhores coisas que tem me acontecido ultimamente.

07 Setembro, 2008

Domingão, nada pra fazer



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29 Abril, 2008

Classificados

Homem promíscuo procura mulher promíscua para relacionamento fiel e duradouro.

14 Abril, 2008

Seu Aloísio

Então, de repente, nessa manhã de segunda, Seu Aloísio resolve não mais acordar. De cima de seus 95 anos ele olhava o resto do mundo a sua volta vestindo um par de olhos embaçados pela moral cristã que não entendiam aquele mundo estranho formado junto com suas rugas.
Em sua última noite, deitado na cama antiga, lembrava dos anos em que transformava as coisas, tempo em que caminhava por lugares ermos de histórias indizíveis. Trilhas de um brasil antigo, onde apareciam cachorros protetores que o acompanhavam nas jornadas fantásticas e onde presenciou misteriosas explosões em céus noturnos. "Foram tantos caminhos, tanta terra, tanto mato, tanta vida" lembra. Olhou ainda ao lado da cama e, por um momento, visualizou de relance a Dona Norma, sua companheira já falecida há algum tempo. Esticou o braço para tocá-la mas ela, tímida como sempre, se afastou daquela conhecida mão de dedos longos. Conversou com ela, riram se lembrando da primeira sela que ele fabricou especialmente para a noiva. Era uma sela lateral pois as moças daquele tempo somente usavam vestidos e assim cavalgavam, sendo que ele jamais entenderia outra moda. Comentava com sua voz grossa e seu agressivo sotaque alemão sobre os novos e absurdos costumes de mulheres de calça comprida e homens de calça curta.
Então ele aspira o ar parado do quarto e imagina sentir, por um momento, o cheiro de madeira recém talhada. Cheiro este que o acompanhou a vida inteira, madeira que o obedecia com devoção, que entortava e tomava forma naquelas mãos ossudas, naqueles braços magros que deixavam expostos músculos arduamente trabalhados na lida com o campo. Músculos que ele gostava de exibir para as crianças que olhavam atônitas aquele velho ancião com a força de um touro.
O tempo passou, a força se foi. Agora tudo o cansa em demasia, até as lembranças o estão estafando. "Bastam de fins de semanas" ele pensou em seu último domingo, "cansei dos dias arrastados, já fiz demais por aqui"disse enquanto, na última de impensáveis quantia de vezes, cerrava os olhos.
E lá foi seu Aloísio, com histórias que jamais sonharíamos e, nem na mais prepotente fantasia, vivenciaremos. As levou com ele, pois nunca demos a correta atenção enquanto ainda tínhamos tempo.

Beijo Vô.

03 Abril, 2008

Mulheres interessantes

Me perguntaram uma vez o que seria uma mulher interessante. Não vou discorrer sobre isso aqui, mas digo que deve ser algo parecido com a personagem "Juno", do filme de mesmo nome, adulta mas sem ter se tornado uma pretensiosa insuportável.

10 Março, 2008

Lua Mineira




...e foi quando, no meio de um céu deveras tempestuoso, nasce a Luna mais linda que eu já vi.

09 Janeiro, 2008

"Toda saudade é uma espécie de velhice"

Das coisas antigas e poeirentas desse meu passado, existem relíquias que ainda insisto em remexer. Relíquias banhadas por uma beleza irreal, que só as coisas velhas, prestes ao esquecimento, possuem.

Este brilho, que no tempo que deveria ter sido, não existiu, me embriaga momentaneamente enquanto tento fugir um pouco do meu presente ainda vazio. Do fundo de minhas rugas pego o maravilhoso parto do meu filho, disseco aventuras infantis e retorno a amores passados.

Algumas das minhas vergonhas tento empurrar bem ao fundo mas, feito graveto em correnteza braba, afundam momentaneamente, sempre voltando à tona. Meus óculos refletem nuvens que há muito já passaram, nublam minhas vistas com águas presentes fruto de rios antigos.

Com a ponta do meu dedo sangro palavras na tábua da mesa que cede com o peso de minhas ruínas. Uma carta de felicidades simples e pensamentos complexos, tudo já apagado. Mas isso não me incomoda nem um pouco, sempre percebi a beleza da fugacidade.

Fecho a carta com uma língua de 100 anos de idade.

13 Dezembro, 2007

O pacote

Então eu fico aqui, rastreando minhas encomendas através da internet. Ótima invenção essa, entro no sitio dos correios, coloco o código e posso saber exatamente como os produtos que pedi caminham tranqüilamente para minha casa. No momento tenho charutos de São Paulo e cervejas de Blumenau vindo em minha direção, vejo todo o seu percurso na tela do meu computador. Já comprei vários produtos de todo canto do Brasil, mas tem uma encomenda que foi internacional, e essa eu não recebi, despachei. Me lembro da emoção que foi aquilo, lembranças para alguém tão distante, pedaços de mim tão dolorosamente juntados e ali aglomerados, no fundo daquela caixa.

Com esperança enviei o pacote, pois dentro dele havia uma ajuda ao vício do destinatário, vício duramente interrompido pelo câmbio do país destino, por isso enviava com a caixa um pouquinho da minha doença. Mas não teve jeito, através do código percebo que o pacote chega em são paulo, demora alguns dias e toma o caminho inverso, retornando a mim. Não adianta, o pacote de cigarros não passou pela alfândega. Finjo ignorar as leis e me faço de assustado, pergunto para a atendente do correio se vou perder o dinheiro ou ainda posso utilizar a encomenda caso retire os cigarros e deixe o restante do conteúdo. Por sorte ela me libera e então troco os cigarros por mais um livro.

Agora sei que ele deve percorrer o caminho corretamente, não há nada mais de ilegal ali dentro. Acompanho emocionado o torto percurso que o pacote vai fazendo antes de chegar ao seu destino. Fico imaginando ela recebendo o aviso de que algo chegou, visualizo-a indo ate la, abrindo a caixa com dedos duvidosos, sorrindo saudades...

Mas algo acontece, ou melhor, não acontece. O sitio dos correios fica estático durante dias, sempre a mesma mensagem, aquele maldito aviso de que a encomenda chegou, nunca mudando para encomenda entregue. Demorei 3 semanas para perceber que a mulher que havia partido, a mulher que eu entreguei ao exterior, não existia mais. Ela havia ido além das fronteiras imaginadas e alcançáveis por mim.

Sentado neste computador eu fumo meus charutos paulistas e bebo minha cerveja blumenauense. O correio ficou caminho só de vinda, de mim não sai mais nada. Agora quase não me lembro mais das cartas de felicidades podres e livros de palavras velhas que devem estar mofando em um depósito frio e escuro, abandonado em um canto qualquer de um pais distante.



"Não me pergunte
Não me responda
Não me procure
E não se esconda
Não diga nada
Saiba de tudo
Fique calada
Me deixe mudo
Seja num canto
Seja num centro
Fique por fora
Fique por dentro
Seja o avesso
Seja a metade
Se for começo
Fique à vontade"

Walter Franco