08 setembro, 2016

Pêsames pelo aniversário

Não vou te desejar feliz aniversário porque sei que estás triste.
Entendo o motivo e, se fosse tu, morreria a cada ano.

Todo aniversário te lembras da própria existência, eu não suportaria tal recordação.
És a pessoa mais desprivilegiada que conheço, a mais infeliz.

Já que és a única que não pode ter noção do que é viver contigo,
a única que não pode te beijar,
a única que não pode conversar contigo e, dessa forma, poder se surpreender com a imensa inteligência
a única que não pode sonhar a cada segundo quando irá te encontrar, imaginar que roupa estarás vestindo e que palavras ouvirá de tua boca.

Não tens como imaginar a espera ansiosa pelo bater de portão que anuncia tua chegada, mas, pior do que tudo somado, merecedor de um tiro nas têmporas, és a única que não pode trepar contigo.

Estás impedida de todos os melhores prazeres que podem ser aspirados por um ser humano.

Por isso te dou meus pêsames em teu aniversário.
O parabéns é para mim.


Na distante Campo Grande
em um longínquo 23/11/2004

07 março, 2016

dos gostos que dois litrão e um maço de cigarro tiram de sua boca

Um dia amargo o conduziu aquele bar. O céu pesado com uma garoa intermitente o levou ao refúgio da última mesa que oferecia alguma proteção contra o tempo e a multidão. Sentou sozinho. Pediu uma cerveja forte para combinar com aquele dia, um litro de uma vez para não ter que aturar a desatenção do garçom. Sorveu grandes goles, sofrego por uma rápida ebriedade. Com esquivas olhadelas às pessoas em sua volta, identificava alguns rostos conhecidos e uma ou outra fisionomia mais interessante, porém voltava-se sempre ao caderno. Queria gastar a tinta da caneta, encher folhas e esvaziar a cabeça.

Conversas acaloradas sobre política e outras mais amenas sobre projetos em andamento e seus conflitos laborais eram percebidas o meio da balburdia geral. Alguém afinando um violão dava a estranha impressão que tudo não passava de um tipo de música descompassada.

Embalado pela estranha canção lembrou de amores passados cuja história compartilhava o mesmo ambiente. Lembrou de alguns queijos finos apodrecendo na geladeira e duas garrafas de vinho que o conduziam à melancolia da mesma pessoa. Um corpo esguio vestido de preto, olhos verdes felinos, cabelo loiro e um comprido pescoço agora o assombravam. Sem propósito nenhum além do tormento, pois não tinha mais direito de pensar nela, já que o isolamento havia sido decisão sua. Sofre sem direito, padece por sua inventada doença.

Pediu a conta e foi-se embora se masturbar à fraca luz de seu apartamento, escondido por uma forte autocomiseração. Tudo era, afinal, o preço pago pela sua cruel necessidade da utópica independência.

Mas, no caminho pra casa, percebeu na língua um gosto doce da noite.

28 outubro, 2015

Cartas

Em determinadas noites, quando presenças estrangeiras, que por algum motivo não posso assediar, invadem minha casa, eu cedo minha alcova solitária e o colchão virgem. Nessas noites, geralmente quentes ou frias demais (pois eu, cuspido morno nessa vida, já tive meu impossível tempo de extremos), quando corre a lua no céu imenso que enfeita minha pequena janela, pego o velho colchão que habita embaixo da minha cama e o jogo no chão do quarto abandonado, e lá ele fica, amassado entre os móveis do espaço exíguo. Deixo-o nu e deito-me naquela vala antiga, deformada na espuma por corpos pesados em sonos difusos nas manhãs lentas de tempos passados. Dias preguiçosos onde tua presença, fugida da universidade, abria meu portão com um barulho nostálgico que me acordava feliz. Teu vulto, talhado no sol que entrava pelos vidros da sala, invadia minha cama pelo pé, levantava minha coberta e se aninhava, quente de rua, em meu peito sonolento. De pés trançados fodíamos o mundo.

E então, algumas vezes nessas noites, deitado no colchão sujo de nós dois, eu lembro.

19 outubro, 2015

mais do mesmo, mas não pra mesma

E não me venha com essa ausência descarada. Nem com esse ultimo escarrar de palavras encerrando minha resposta com um bater de porta na cara. Isso é coisa de casal, algo que não somos mais.
Não adianta sair pisando firme, nem franzir o cenho e amarrar esse bico na cara (apesar de ficar linda com ele). Você não me odeia por causa dos meus pensamentos. Você me odeia porque vê sentido neles, os entende. Você é fabricada pela mesma logica, a mesma matéria racional e insensível que constituem minha falta de crença. Então o que você odeia é a própria sensação de que, mesmo não querendo, algo se encaixa no meio desse monte de impropérios que vomito a torto e a direito.
É quando se esconde, tenta não pensar muito no assunto. Leva a vida em buracos cheios de pessoas desinteressantes e fúteis, preenche seu tempo fugindo da própria forma de pensar, entra na multidão tentando se perder no meio de alguma festa esnobe. Mas sente que, beeeeem la no fundo, tua mente não te deixa em paz.
Sinto muito mas você nunca vai conseguir correr o suficiente para fugir do seu próprio raciocínio, por mais imbecis que jogue em sua cama. E é isso que te mata, é isso que você odeia, é isso que te rouba o sono a noite.
Na verdade você não me odeia, você se odeia ao perceber que é como eu.

10 setembro, 2015

Ojos fugaces

Miré aquellos ojos fugaces
Ojos que miraban a todas partes
menos a mí

Miré aquellos ojos fugaces
bordeados por una piel suave y dorada
y se fueron

Pero cuando estaba en ella,
Miré aquellos ojos fugaces
y ellos me miraron de vuelta
A partir de ese momento los ojos fugaces me persiguen. Me despiertan del sueño

Me miran de su distancia segura y me siguen en silencio
Miré a aquellos ojos
y ahora no puedo escapar
de aquellos ojos fugaces

"Matamos lo que amamos. 
Lo demás no ha estado vivo nunca."  
Rosario Castellanos



Primeira tentativa de escrever em espanhol, por favor quem souber me corrija

28 julho, 2015

Sobre o que eu sou (ou, da beleza em como os inteligentes xingam)

"Tu tinha razão quando disse que deveríamos nos afastar. Com o afastamento veio a serenidade e o entendimento.
Enfim entendi tua promiscuidade.
Não se restringe somente ao sexo; tá presente nas relações, nos “afetos”, na forma de viver.
O bom dessa superficialidade está em esconder a ausência de autenticidade (vide teu personagem de redes sociais desassociado à personalidade de seu criador).
É fácil demonstrar carinho, afeto, cuidado, sofrimento, sensibilidade, fragilidade e atenção no mundo virtual - cria-se uma plateia de ignorantes admiradores por alguém que, aparentemente, não tem receio de mostrar sua humanidade.
Entendi a importância da quantidade – não necessita integridade ao adentrar (nem é necessário adentrar, a superfície te basta, é local seguro) e, assim, não há risco em mostrar como se é de verdade; logo, não há risco em decepcionar ninguém e lidar com consequências e rejeições decorrentes.
Não creio que a mediocridade te defina, a superficialidade sim.
E não há mal algum nisso.
O mal está em ludibriar as pessoas com uma falsa imagem em troca de satisfazer tuas necessidades e carências, sem se importar com o que elas sentem (tu já me disse várias vezes que não se importa, além de ter demonstrado. Talvez isso explique por que tu trata mal a quem diz gostar e está perto). Eis o egoísmo que sempre mencionei (sou sútil com os adjetivos).
Bom, o fato é que me afeiçoei pelo personagem “virtual” – ele é interessante e carismático. Na convivência me foi possível distinguir um do outro – o ser real é vazio, por isso eternamente insatisfeito.
Sei que o que escrevo não é verdade universal, é só minha visão a teu respeito - apesar que nada que escrevi é novidade pra ti.

Não sinto mais raiva, tristeza, desolação, falta... sinto alívio por perceber que posso classificar tudo como um engano. E enganos acontecem e são facilmente superados e esquecidos.
Com o exposto é simples compreender minha falta de interesse em te manter, de nenhuma forma, em minha vida"

14 maio, 2015

Meritos devem ser dados

Pelo menos sou responsável pela melhor foda da tua vida, proporcionada pela minha ausência.

27 abril, 2015

Cancum na chuva

Bêbado de vodka vagabunda com água de coco, andando pelas ladeiras de pirenópolis resolvo me proteger entrando na igreja.

Era uma casamento e algumas pessoas das ultimas filas se viraram para ver quem havia entrado mas logo me esqueceram e voltaram ao discurso enfadonho do padre que começava a ler alguma carta de um corinthiano para outro alguém.

Percebo uma moça loira muito jovem, com as coxas lindas aparecendo por baixo de uma minissaia preta logo ao meu lado, imaginei que seria parte da recepção matrimonial. Cheguei mais perto e pedi pra bater uma foto para mandar para minha ex que estava em cancum e me mandava várias fotos dignas de inveja. Disse para a loira que ela devia estar fodendo com algum mexicano ou turista nessa altura e queria mostrar que não estava sozinho. Ela riu e disse que não se importava, bati a foto e enviei.

Empolgado com o sorrisinho recém saído da adolescência e entorpecido pela água de coco (a coitada da vodka não tinha culpa nenhuma), cheguei ao ouvido dela e disse. Você não está fazendo nada mesmo, que tal aproveitar o padre e casar comigo?

Só o que consegui foi mais um sorrisinho antes dela se virar e sumir no casamento. Eu voltei pra chuva.

06 abril, 2015

pizza


Olhou um último momento enquanto ela se afastava pelo corredor em direção ao elevador. A bolsa segura com uma força nervosa por aquelas mãos pequenas e os saltos ecoando alto pela madrugada quente daquelas outras portas silenciosas, eram 4 da manhã. Acompanhou-a com os olhos por pouco tempo e entrou, fechou a porta bem devagar e com as duas mãos. Girou a maçaneta para não fazer nenhum barulho, sempre imaginou como ofensa o som da porta sendo fechada quando a pessoa ia embora.

Entrou no quarto e sentiu o cheiro forte de cigarro, a cama toda desfeita ainda estava quente e molhada.

Deitou e lembrou que ela havia dito que não mais voltava. Odiava aquilo, quando alguém encerrava algo bom só porque não teria exclusividade. Odiava essa tendência possessiva das pessoas. Pensava que sentimento não se divide e não é finito, não se gosta menos de uma pessoa por admirar outra.

Se sentia muito triste naquele momento, principalmente pelo fim desnecessário de algo que poderia ser bom por tanto tempo, uma vida talvez. Gostava muito dela, bém além da foda. Adorava conversar, beber, ver um filme em casa e passar o tempo. Coisas bestas. Mas em sua concepção nada valia tanto quanto sua liberdade.

Se assustou quando a campainha tocou. Levantou-se e abriu a porta que nem havia lembrado de trancar. Vestia um sorriso que não pode se manter por muito tempo, era apenas o entregador de pizza que havia errado de porta.

Da lucidez e da distância (1 km vs 3000 km)


Existe uma importância solene no momento em que nos percebemos desimportantes. Uma lucidez cruel na percepção do todo e do qual não mais fazemos parte.
E assim foi, conforme ela falava eu diminuia. A cada palavra acompanhada por um brilho no olhar eu encolhia. A importância da história vivida, ilustrada por inúmeros registros sorridentes e provocantes, me tiravam um grama de osso, uma nesga de músculo por frame.

No final só minha pele seca sobrava.

Eu não mais era grande parte dela, os vazios foram preenchidos mas não por mim. Pensei que ocupava aqueles espaços mas, se assim o fosse, não existiria a possibilidade dele ali ter estado, e esteve. E permanece.

Então agora, já que
o deliriuns tremens que te provocava não mais é exclusivo
minha boca já não beija melhor
minha graça não mais abre teu riso
minhas frases não despertam mais o interesse

me espanta que, de noite, no fim da festa,
o braço que ainda mais te abraça é o meu.

02 março, 2015

Procura-se uma puta de rua que saiba desenhar, fotografar e goste de ler (literatura mesmo, não essas coisas que tem por ai).

27 fevereiro, 2015

Dedicatória

Te deixo um livro que,  assim como tu, me encantou e marcou de forma indelével. Foi tamanha a violência com que me invadiste que, em fragmentos, um pouco de ti agora é meu e, apesar de ser o contrário que pedes, não vou te esquecer, pois não mais és dona do pedaço teu que habita em mim.

Com amor e um eterno pesar que existe nas coisas que brilham muito e apagam cedo.

04 novembro, 2014

o beijo


Então ela entrou no carro e o beijou. Não no rosto, que demonstraria o social do cumprimento entre duas pessoas que se encontram uma primeira vez e irão se conhecer para identificar algum tipo de empatia, que seria a realidade do momento. O beijo dado antes de qualquer palavra proferida, foi o de línguas entrelaçadas demonstrando claramente a carne prontamente cedida e não negociada.

Entrou nele ao mesmo tempo que no carro. O carro, como tudo nele (o apartamento, os queijos, o vinho, a cama e ele próprio) era preparado justamente para isso. Era tão acostumado com a impressão que causava nas mulheres que buscava que em nenhum momento temeu a recusa de sua investida imediata, sabia que no simples consentimento em sair com ele já estava implícito o acordo. Jamais passou pela sua cabeça que ela pudesse se ofender por uma demonstração tão grosseira de sexo sem antes nunca ter tido contato com a pessoa e, para sua sorte, ela demonstrou que não era diferente. Era pura e simplesmente aparência, não se importou no que muitas diriam ser considerada puta pelo desconhecido, justamente o contrário, assim agiu.

12 junho, 2014

Não tenho tempo ou paciência para prisões.
Quando são os olhos que tem fome, não tem comida que sacie

13 março, 2014

Gia

Estava fazendo arroz no fogão improvisado quando Gia me disse que havia lido algumas das minhas anotações. Não havia lhe dado permissão para isso, já estava começando a me fartar daquelas invasões de privacidade que estavam se tornando cada vez mais constantes. Deixei-a falar. Comentou que eu havia escrito sobre antigas mulheres que passaram em minha vida, disse que alguns textos provavelmente se referiam a seduções atuais e que ela não estava disposta a ser enganada. Que diferença da mulher que conheci, liberal e independente, pensei. Falei que produzia contos e que não é por estar escrito que eu havia vivido realmente aquilo, comentei sobre a síndrome de Zuckerman citada por Rubem Fonseca em algum de seus romances (e que provavelmente ele mesmo inventára) que era justamente a confusão que os leitores faziam imaginando que toda peça literária é a descrição real de algo que acontece na vida do escritor. Não disse mas pensei, sobre o comentário de não querer ser enganada, de novo o amor como expressão máxima do egoísmo (imperceptível para quem sente). Gia balançou a cabeça sinalizando que havia entendido mas permaneceu nervosa enquanto eu continuava a cuidar do arroz. Você não pode ter tudo, ela me disse, ninguém tem. Escolha: eu ou o resto? Respondi que isso não era escolha, o tempo que temos nessa vida é muito pouco, não existe como optar por algo em detrimento do resto, independente do quanto se ama essa coisa. Disse que ficava impressionado com o fato dela não perceber a crueldade daquilo, que ninguém que tenha a mínima preocupação com a outra pessoa poderia pedir o abandono do resto do mundo. Ela respondeu que todo mundo é assim, que é como as coisas são e que eu que era anormal. Respondi que realmente eu não sou todo mundo e que não considerava a comparação com o resto da humanidade um ponto argumentativo válido. Comentei que achava aquilo uma pena tão grande pois tínhamos a possibilidade de ser um casal livre e feliz. Relacionamento e liberdade para ela eram antíteses, situações antagônicas e impossíveis enquanto, para mim, era a única forma de relacionamento que poderia dar certo e que me permitiria ter. liberdade é relativa, bradava, a minha noção de liberdade é diferente da sua. Liberdade é eu não lhe impedir de fazer algo que queira e vice versa, não existe variação de interpretação para isso, comentei cabisbaixo.


Acabei queimando o arroz quando comecei a ficar triste imaginando o mundo inteiro abdicando de tudo por uma simples questão de egoísmo e falta de autoconfiança infantil, tinha começado a olhar para a hipnótica dança das labaredas entre os tijolos e acabei esquecendo da panela. Comemos em silêncio e fui me deitar, não percebi se e quando ela foi pra cama.

Fui embora no dia seguinte em uma manhã fria mas muito clara. Via o céu ainda deitado em minha cama e lembrei de quando cheguei em Formentera, era o mesmo azul de claridade ofuscante daquele dia. Gia não estava mais ao meu lado, já havia se levantado e partido para algum lugar que eu ignorava. Seu lado da cama estava frio, indicando que estava ausente há algum tempo ou sequer houvesse se deitado. Levantei-me e peguei um resto de biscoito que ela havia deixado ao lado da cama, claro que o pacote estava aberto e as bolachas murchas. Peguei uma metade já mordida, uma assinatura daquela boca que tanto invadi com minha língua. Cheirei-a cerimoniosamente e encostei a ponta da minha língua na beirada dentada, lembrei-me dos nossos primeiros beijos e tentei sentir o seu hálito matutino naquela metade de chocolate. Claro que não senti nenhum gosto além do forte doce, mas aproveitei a nostalgia que aquilo estava me despertando. Devorei o biscoito de uma vez, levantei-me e fui, sem camisa, me espreguiçar do lado de fora. O contraste do vento frio com o calor do sol em minha pele me fez encher o pulmão daquele ar que fora meu companheiro por tanto tempo. Despedi-me olhando tudo em volta, como sempre atentei aos detalhes que deixaria de ter a disposição diariamente a partir daquele momento: as pichações, a roda d'água barulhenta, todos os trincados decadentes daquela construção que havia invadido há alguns anos e o imenso azul de mar e céu que tão bem me fizeram. Dei uma volta pela parte externa da casa e pensei comigo mesmo que já era realmente a hora de seguir adiante. Tirei de dentro da minha mochila um livro que havia conseguido em troca de outros no sebo do bairro, Xaviera Hollander, uma obra picante que já havia lido quando adolescente garimpando a empoeirada biblioteca dos meus pais em Campo Grande no distante Mato Grosso do Sul. Contava a vida real de um prostituta de luxo e, segundo as descrições na parte de trás do livro, havia sido um best seller em sua época. Peguei meu lápis e escrevi na primeira página “para minha puta”, logo abaixo da marca afundada no papel que assinalara o nome de um antigo dono e que fora apagada pelo sebo. Apesar dela não ser mais a “minha puta” não queria me despedir da pessoa que havia se tornado mas sim da pessoa extremamente importante que ela havia sido e que, agora, eu deixava. Sabendo que sentiria uma falta tremenda de Gia, coloquei o livro sobre o colchão de lençóis desfeitos e fui embora carregado umas poucas peças de roupas e alguns livros.

Viciado em mar comprei passagem só de ida para uma outra ilha em outro país e, durante a viagem, acabei sabendo que o aeroporto onde desceria seria o mesmo onde aconteceu o maior acidente aéreo da história.

22 novembro, 2013

E foi assim, entre um almoço executivo e um programa grã fino que a burguesia o atacou, converteu-o em um homem de família, calmo e afável, com grande valor social e insípido culturalmente. Foi só quando desistiu, quando parou de se debater e afundou convertendo-se na massa antes ojerizada, que a palavra que nascia dele morreu.

20 junho, 2013

O quarto

Antoine acordou assustado, confuso por não conseguir enxergar.  Ficou um tempo deitado de costas tentando entender o que estava acontecendo.  O lençol arrancado na noite de sono violento estava enrolado em sua perna esquerda. Sua cabeça avisa que não era para estar escuro, alguma coisa tinha acontecido. Será que tinha acordado muito cedo e ainda era noite? Será que estava mesmo em sua casa? Perguntas que fez para seu leito do qual não obteve resposta. Sua pulsação começara a acelerar e, mesmo com o tempo passado, em nada o breu se dissipara. Não ouvia nenhum ruido vindo da rua. Onde estariam os carros, os ônibus matutinos, os bebados voltando pra casa e os trabalhadores para o serviço? Por onde andava aquele fervilhar urbano que o acordava todos os dias?


Antoine estava imerso no escuro e silêncio, sozinho com seus pensamentos. Chegou a cogitar se ainda estaria dormindo e que tudo aquilo não passasse de um sonho. Sentia uma opressão enorme comprimindo seu peito, uma tristeza imensa.


Começou  a pensar que a depressão era o estado natural do homem, afinal era só ter um pouco de senso crítico para perceber que nada valia a pena, tudo não passava de uma falsa sensação de importância em um mundo que nunca notaria a existência individual de cada um. Imaginou que o otimismo e felicidade eram proporcionados por alguma substância química liberada por alguma parte do corpo e que causava um entorpecimento das noções de realidade, mascarando tudo e tornando as coisas mais suportáveis. Ia além, imaginava essa substância como algo finito, assim como os óvulos femininos que nascem em uma determinada quantidade e são só aqueles durante a vida toda. Por isso teríamos uma felicidade maior nos anos mais novos e conforme avançamos na idade, a depressão começa a cobrar o seu espaço.


Antoine tinha total noção da insignificância de tudo, aquela sensação imensa de vazio que sentia no quarto escuro e silencioso ilustrava bem sua posição atual na vida. Não sabia por que levantar, para que sair daquela cama ou quarto.


-Foda-se, quero pelo menos descobrir o porquê dessa escuridão e silêncio.

Não conseguiu se levantar pois sua cabeça bateu em uma estrutura de madeira que o cobria. Antoine não estava em seu quarto.

12 junho, 2013

Valeu Tio

- Valeu Tio.

A adolescente ainda estica o dedão para o céu antes de entrar no bar levando de carona o cigarro que acabei de acender.

- Tio é o seu cú - respondo imediatamente mas não tenho certeza de que ela chegou a escutar antes de entrar na porta abarrotada de jovens à qual ainda resolvi não enfrentar.

Você ouviu o que ela disse? - viro-me para minha namorada mas percebo que não está mais do meu lado, conversa animadamente com dois sujeitos da idade dela, um tem cara de estrangeiro e não me parece que está falando nossa língua. Escoro na lixeira metálica verde do meu lado e bebo o resto da lata de cerveja. Olho em volta e só tem um grupo de rapazes discutindo religião na minha frente, não vou me meter, acendo um cigarro e vou atrás de algo para beber. Olho para dentro do bar e não crio coragem, muita gente se atropelando na porta e mais uma fila enorme do lado de fora. Minha namorada continua conversando empolgada, resolvo andar até a loja de conveniência que não fica muito distante de onde estamos.

Passo por vários grupinhos que estão fumando maconha. Um dos adolescentes de um desses grupos me pede um cigarro, acendo e entrego a ele em troca de um pouco da vodka vagabunda que eles estão bebendo, dou um gole grande que me queima um pouco por dentro, alivio acendendo mais um cigarro.

Peço três latas de cerveja e um maço de cigarros, o rapaz da conveniência me atende antes dos outros moleques que se empurram pela janela da loja, nessa hora ser mais velho me ajuda um pouco.

Volto e minha namorada já não está mais conversando com os dois sujeitos, agora está com um grupo de duas meninas e um garoto. Quando chego abraçando-a por trás (instinto machista de demonstrar posse) vejo que uma das garotas é a menina que me chamou de tio. O assunto da roda é aventuras sexuais, fico mais a vontade e ofereço uma ceveja pra minha namorada e outra ao grupo. Minha namorada fala jogando os braços compridos dela para todos os lados, vejo que está tentando impressionar mas ainda não identifiquei quem, pode ser qualquer um do grupo ou de fora dele. Gosto de ouvi-la contando vantagem, enquanto todos usam histórias rápidas ela se extende em epopéias intermináveis. Ela sabe do que está falando, conta sobre suas peripécias com outras garotas, não me intrometo. Percebo que o único que está um pouco incomodado do grupo é o rapaz, deve ser menos experiente e fica calado. Eu também não falo nada mas por outro motivo, nesse assunto é melhor deixar as coisas correrem por conta própria, o que quer que diga vai atrapalhar a conversa, e isso eu não quero. Mesmo que minha namorada não esteja chamando o rapaz para a conversa percebo, por experiência, que é a ele quem está tentando impressionar, não posso censurá-la, até que o rapaz é bonito.

Confesso que, ao ouví-las falando sobre essas putarias todas acabo pensando em um menáge, mas essas coisas quem define é minha namorada, não vou me intrometer. Termino minha cerveja e resolvo enfrentar a multidão do bar, o grupo decide entrar também e vão na frente. Escuto alguns fragmentos da conversa de minha namorada com a menina-tio que demonstram que estão marcando alguma coisa pra mais tarde. Sorrio e pego forte na bunda de minha namorada que está com um short apertado, passo pelos dois rapazes com quem estava conversando e eles nos seguem com os olhos. Tio é o seu cú.

09 maio, 2013

solicitação

Vamos combinar o seguinte: some da minha vida!
Só apareça quando não mais achar que faz mais por mim do que eu por você.

Te espero ansioso no elevador o tempo que for necessário.

04 abril, 2013

O espaço entre a pedra e o chão


Só a beira, era o tanto de olho que eu deixava pro lado da pedra. Medrei depois que Jão disse que podia ser visto de longe caso meu metal se alumiasse. Não mais esticava o pescoço, que melhor me deixava ver. Mesmo com o ponto distante, de forma que não identificava nem braço nem perna nem cabeça, eu me protegia. Talvez meu chapéu apontasse na parte de cima da pedra mas, como eram tudo da mesma cor de sujeira, imagino que não daria alarme. Além do mais não ia deixar minha cabeça queimando de sol, tava muito forte de quente. Voltei a me escorar com as costas na pedra fervente, não tinha sombra no sol do meio dia, meu suor escorria e colava a pele na roupa. Meu chapéu acabou ficando um pouco levantado nessa posição, espremido entra a pedra e a nuca. Lembro do gosto salgado do suor pra dentro da boca, tinha água mas não sede apesar de estar queimando por dentro. Enquanto o ponto ainda era ponto lembrei da minha terra não muito distante, nuca fui pra muito longe, nem o que era de longe se aproximou muito de mim. Sou daqui, não da pedra, mas de perto. O distante e diferente me mareavam, mesmo sem mar. Agora cá me penso, já estou sem mijar há mais de um dia, cagar nem pensar. Isso não seria problema, faço no canto da pedra e me limpo jogando areia no cu, como sempre. Mas não faço essas coisas. Não faço por agora, tenho que resolver o caso do ponto, que ainda é ponto pois não teve tempo de se transformar em outra coisa, não ainda. Pelo menos eu acho. Quando penso muito me encho de dúvidas, e isso me desespera. Quando foi que eu dei a última espiada? Agora? Faz tempo? não lembro mais. Volto a meter o olho pelo lado da pedra. Não, é ainda um ponto. Não está muito diferente da outra vez, é no que percebo que não tinha espiado faz muito. Ou não, o ponto pode estar parado, querendo ser sempre ponto pra não ser outra coisa. Será que ele sabe que se ele for outra coisa eu dou um jeito nele? Será que ele atinou no vulto do meu chapéu? Será que de ponto, com regresso resolvido, sumirá? Isso não poderia ser, por ser muito terrível. Já foi fechado o assunto com meu patrão de agora, nunca descumpri o que selei com palavra. Minha língua sempre foi bem usada, não muito, mas quando sim, era verdade. Lembrei agora que estou sem comer também, talvez por isso não me tenha ido aos pés. Mas isso é bom, só que agora com o lembramento, a fome me veio. Mascava uma casca de árvore, a terceira já, mas o estômago pedia carne. Lembrei do naco que deixei no alforje, embora já devesse estar podre. Masquei um pouco, estava dura e soltava uma espécie de areia, mas o gosto não era tão ruim e quando a saliva entrava na carne, voltava como um caldo saboroso, embora forte, entre meus dentes faltantes. Dei um gole de cana, agua ainda não me faz falta. Respiro um pouco e olho pro vazio do céu. Será que ele sumiu, ou vem mais pra perto do destino que, nesse caso, se transveste de mim? Não gosto de pensar, tanto que vou a igreja. Lá o pastor me ensina no berro “tudo que há de ser, será”. Se espio, meu chapéu aponta, mas se não, me perco o negócio. Espio ou não? No resolvimento, espio. O ponto já criou braços, vem a ter comigo. Fico tranquilo e não mais me esgueiro na pedra escaldante, fico firme e quieto. Manejo meu ferro devagar, é quente no sol do meio dia, machuca a mão. Há de ficar pior, o sol não se compara a pólvora que vou queimar. Me vem de novo o medo do brilho do metal, Jão filho da puta. Não gosto de pensar. Faço mira e suo, sei os dois muito bem, por isso aqui me tenho. Ele não deve ter escutado o barulho, nem eu escuto o dele, foi um desabar silencioso, pelo menos na distancia. Pronto, já não tem mais ponto, já não tem mais perna, já não tem mais braço, agora é só chão.

21 março, 2013

A safada da janela


Não sei seu nome, aliás não sei quase nada de sua vida, apenas duas coisas: que mora em um apartamento que fica mais ou menos no meio do prédio em frente ao meu e que ela determina a rotina de muitos homens, rapazes e algumas mulheres dos prédios em volta, assim como a minha. Como sei? Por mim e pelos barulhos e silhuetas que escuto e vejo nas janelas em volta toda manhã.

Imagino que alguns solteiros possam ser indiscretos e mantenham as janelas escancaradas ficando em pé, sem nada a esconder ou medo de serem vistos enquanto observam. Não é meu caso, sou casado e não posso cometer essas explicitudes, creio que muitos assim o sejam. Sei que todos levantamos mais cedo do que precisamos só para observá-la.

O celular vibra, acordo em silêncio, não acendo a luz para não despertar minha esposa, saio devagar da cama e vou pra janela. Tenho um ótimo ponto de observação, meio pra cima e reto em frente ao seu apartamento. Escuto sussurros, pigarros e outros sons que indicam que não sou o único já acordado fazendo parte daquela platéia.

A janela em seu quarto tem cortinas brancas completamente transparentes e que hoje estão abertas. Nessa manhã ela veste um short jeans minúsculo, o meu preferido, e uma blusa branca branca rasgada nas mangas e cintura. Consigo entrever os mamilos através do espaço aberto pela manga ausente enquanto levanta o braço para regar as plantas com um copo. Os seios nus acompanham-na em uma dança com alguma música que não consigo ouvir.

Momentaneamente ela some, imagino que tenha ido tomar banho e penso na vida feliz das esponjas. Minha esposa emite um pequeno suspiro e vira de lado na cama, felizmente sem despertar.

Depois de pouco tempo a vizinha retorna envolta em uma toalha, como sempre. Pega o vestido, levanta-o esticando os braços e, em um movimento único, deixa-o escorregar pelo seu corpo enquanto a toalha cai. É por esse espaço entre o vestido e a toalha percorrendo seu corpo nu que todos esperamos, essa janela dentro de outra.  Sinto os olhos do meu prédio colados naquela vidraça. Ela sabe disso, faz o show porque nos excitar a excita.  Nossos olhos se cruzam quando olha pelos prédios em volta para conferir o sucesso de seu espetáculo. É quando abre um sorriso, vira o corpo e sai pela porta afora, sinto os aplausos mesmo que não existam.

Ela sabe que gostamos de observar.

Minha esposa desperta quando sento de volta na cama.
- Já acordado?
- Estava olhando você dormir - digo enquanto enfio minha mão entre suas pernas.

19 março, 2013

o ato de não agir



Não posso descrever como veneno,
não o é por não ser algo que se administra,
mas dói igual
é como se fosse vida que, de ausência, mata
assim que é
a cada dia que passa,
o tempo puxando as vísceras
me enchendo com o vazio deixado
pelo teu silêncio

14 março, 2013

Licantropia


Eu tento, eu juro que tento. Todo dia aumento os sulcos do tampo de madeira de minha mesa arranhando-a com a ponta de minha pena. Tento, dessa forma, afastá-la do papel e digo a mim mesmo, como uma espécie de oração ou solicitação de clemência, que não vou te escrever, que não existe dica mais clara para deixar-te em paz que tua ausência.

Não consegui. Essa merda de barulho ensurdecedor que só as coisas caladas fazem não me deixa em paz e empurra a tinta pro papel. Como meu peito me obriga a ver as coisas de determinada forma, minha vista fica nua de razão e acabo por entender tudo como conivência, até o silencio, por mais escrachado que seja o desprezo.

Agora te peço, sob o apelo até de misericórdia, um golpe final e eu retorno a minha quotidiana mediocridade. Puta que o pariu sua filha de uma puta, responda-me essa porra de carta nem que seja para me mandares à merda, caralho!