Ainda não tenho muito definido em minha mente do porquê voltei, porque não abandonei tudo e construi uma cabana em finisterre. De qualquer forma, estou de volta.

Iconoclasta, determinista, de beira de copo e fundo de cinzeiro, dono de um mundo de um eu só, mas inteiro.
Jingle Bells, ou algo assim. Luzinhas, árvores e um pedófilo de vermelho. Chegava a época consumista, aquele período que, junto com o fim de ano, são os mais deprimentes, pois nos obrigam a sermos felizes e, justamente por isso, nos mostram o quanto somos miseráveis. Só sei que era véspera de natal e o passaria sozinho novamente. Morrendo de pena de mim mesmo, resolvi fazer uma boa ação e me livrar das moedinhas que guardava em uma lata velha que ficava em cima do meu guarda roupas. Peguei-as todas e enfiei-as em um saco vermelho, mais papai noel que isso impossível. Era um saco pequeno e eu havia juntado muitas moedas, então o pedaço de pano ficou estufado, devia haver mais de R$ 50. Dei um nó na ponta e sai com aquele trambolho na mão, não cabia no bolso.
...e foi então que ela veio me falar sobre coisas breves e também sobre outras duradouras, discorreu sobre o que é pequeno e grande. Medidas que aprendemos quando crianças, cuja noção perdemos no decorrer do tempo. Inicialmente tudo é eterno e enorme, conforme crescemos a mediocridade e brevidade nos acostumam, nos fazem ficar entorpecidos e não mais nos damos conta da real magnitude das coisas.
Então, de repente, nessa manhã de segunda, Seu Aloísio resolve não mais acordar. De cima de seus 95 anos ele olhava o resto do mundo a sua volta vestindo um par de olhos embaçados pela moral cristã que não entendiam aquele mundo estranho formado junto com suas rugas.
Das coisas antigas e poeirentas desse meu passado, existem relíquias que ainda insisto em remexer. Relíquias banhadas por uma beleza irreal, que só as coisas velhas, prestes ao esquecimento, possuem.
Então eu fico aqui, rastreando minhas encomendas através da internet. Ótima invenção essa, entro no sitio dos correios, coloco o código e posso saber exatamente como os produtos que pedi caminham tranqüilamente para minha casa. No momento tenho charutos de São Paulo e cervejas de Blumenau vindo em minha direção, vejo todo o seu percurso na tela do meu computador. Já comprei vários produtos de todo canto do Brasil, mas tem uma encomenda que foi internacional, e essa eu não recebi, despachei. Me lembro da emoção que foi aquilo, lembranças para alguém tão distante, pedaços de mim tão dolorosamente juntados e ali aglomerados, no fundo daquela caixa. Com esperança enviei o pacote, pois dentro dele havia uma ajuda ao vício do destinatário, vício duramente interrompido pelo câmbio do país destino, por isso enviava com a caixa um pouquinho da minha doença. Mas não teve jeito, através do código percebo que o pacote chega em são paulo, demora alguns dias e toma o caminho inverso, retornando a mim. Não adianta, o pacote de cigarros não passou pela alfândega. Finjo ignorar as leis e me faço de assustado, pergunto para a atendente do correio se vou perder o dinheiro ou ainda posso utilizar a encomenda caso retire os cigarros e deixe o restante do conteúdo. Por sorte ela me libera e então troco os cigarros por mais um livro.
Agora sei que ele deve percorrer o caminho corretamente, não há nada mais de ilegal ali dentro. Acompanho emocionado o torto percurso que o pacote vai fazendo antes de chegar ao seu destino. Fico imaginando ela recebendo o aviso de que algo chegou, visualizo-a indo ate la, abrindo a caixa com dedos duvidosos, sorrindo saudades...
Mas algo acontece, ou melhor, não acontece. O sitio dos correios fica estático durante dias, sempre a mesma mensagem, aquele maldito aviso de que a encomenda chegou, nunca mudando para encomenda entregue. Demorei 3 semanas para perceber que a mulher que havia partido, a mulher que eu entreguei ao exterior, não existia mais. Ela havia ido além das fronteiras imaginadas e alcançáveis por mim.
Sentado neste computador eu fumo meus charutos paulistas e bebo minha cerveja blumenauense. O correio ficou caminho só de vinda, de mim não sai mais nada. Agora quase não me lembro mais das cartas de felicidades podres e livros de palavras velhas que devem estar mofando em um depósito frio e escuro, abandonado em um canto qualquer de um pais distante.
"Não me pergunte
Não me responda
Não me procure
E não se esconda
Não diga nada
Saiba de tudo
Fique calada
Me deixe mudo
Seja num canto
Seja num centro
Fique por fora
Fique por dentro
Seja o avesso
Seja a metade
Se for começo
Fique à vontade"
Walter Franco
É horrível acordar no meio de um sonho, fica tudo confuso por um tempo enorme.
Uma das coisas que me estimula é saber que existem muitos autores bons a serem, por mim, descobertos. É uma surpresa deliciosa iniciar um livro despretensiosamente e ser envolvido inteiro pela escrita. Ítalo Calvino foi um desses casos. Sempre soube que a ignorância é uma benção e, por isso, sempre agradeço meu conhecimento e interesse literário não formal, sempre me colocando em frente à fabulosas descobertas.
Queria saber o porquê disso agora. Depois de tudo superado esses sonhos recorrentes com margaridas verdadeiras.
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