yo que nunca tuve más religión que un cuerpo de mujer

19 janeiro, 2018

Das caretas que realmente assustam

Alexey nunca havia se apaixonado antes, não dessa forma pelo menos. Não era simpático aos cultivadores de amores platônicos e achava o romantismo uma bobagem criada para vender livros de segunda e fazer música ruim. Mesmo assim, com toda ojeriza que sentia pela futilidade do interesse através da aparência, Alexey havia se apaixonado por uma foto.

Percebeu o que estava acontecendo apenas quando começou a acessar aquela imagem de 5 em 5 minutos alternando a tela do seu computador através do teclado. Não conseguia mais trabalhar, sua concentração estava inteiramente comprometida em esperar o próximo atl+tab e rever aquele rosto. Era uma imagem comum e não diferia das varias beldades disponíveis pela rede se não fosse um detalhe, a menina da foto estava fazendo uma careta e, para Alexey, isso fazia toda a diferença.

Conseguia entrever detalhes pela imagem, uma tatuagem no pulso com o símbolo do ateismo, os olhos pintados e um quadro com guarda chuvas pendurado na parede logo atrás. Conseguia construir algumas características através dessas informações, mas o que o conquistou, o que realmente o fez perder a cabeça foram as possibilidades. Alexey sabia que o que estava sentindo era construído por essas possibilidades e forjado pela admiração. Todos aqueles detalhes o intrigavam e o levavam a querer conhecê-la mais e mais, e isso era o indício mais forte de paixão que conhecia.

Dentro da sua cabeça teceu as imensas possibilidades de personalidade e dos embates resultantes que os dois teriam. Imaginou se algum dia contariam sua história entre risos, regados de cervejas e cercados por amigos íntimos ainda desconhecidos. Pensou que estariam todos em volta de uma mesa, a abraçaria segurando firme com os dedos entrelaçados em seus cabelos, a beijaria e diria para todos que se apaixonou a primeira vista apenas pela foto de uma careta. Imaginou os países que visitariam, como seria a família dela, das comidas que preparariam juntos enquanto bagunçavam a cozinha. Pensou nos vinhos que tomariam, nas brigas que teriam e nas pazes que fariam.

Porém algo gelava dentro de Alexey, ele percebeu algo mais, e isso lhe dava um puta medo, já tinha experiência para saber que ela era o tipo de mulher de quem sentiria ciúmes, por quem sofreria, alguém que o faria engolir todos os discursos ideológicos de liberdade e racionalidade que sempre vomitou e defendeu. Alguém que o desestabilizaria e o arrancaria de sua confortável ilusão de independência.

Alternou um pouco a tela tentando trabalhar mas o máximo que conseguiu foi parar de pensar no futuro e se ater ao presente, começou a pensar se teria namorado. Imaginou como devia ser seu dia a dia, quais os sonhos e os dramas quotidianos que ocupavam aquela vida. Queria fazer parte daqueles planos e problemas, ajuda-la a resolvê-los e levar alguns dos seus para ela. Tremia por dentro somente com a ideia de tocar aquela pele feita somente por pixels.

E assim foi dormir, com a imagem daquela menina torcendo a cara vagando por sua mente. Dormiu sorrindo um sono bom mas, no fundo, sabia que não passava de uma foto perdida na internet, sem nenhum nome e nenhuma possibilidade de encontrar a dona daquele rosto e poder ve-la fazer qualquer outro tipo de careta.


PS. (Alexey enviou esse conto em forma de carta. Como resposta conseguiu uma sequência linda e muda de fotos das mais variadas caretas, que só serviram para aumentar sua paixão e medo)

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