03 fevereiro, 2026

Quando batem na porta em uma noite chuvosa em uma cabana no meio do mato

A cada clarão que incidia sobre minhas pálpebras fechadas, seguia-se o estrondo mais próximo de um trovão. Revolvi-me no leito, atento ao ritmo insistente da chuva no telhado. O vento atrevido uivava, forçando entrada pelas frestas da velha casa de madeira, um som que, paradoxalmente, me serenava. O ar carregado impregnava-me: odor de madeira lavada e cansada de sol, de teias, de umidade, de séculos estagnados que dançavam com lufadas renovadas. Eu não dormia, não por falta de relaxamento, mas por estar entregue ao conforto da minha própria solidão, naquela distância minha entre outras gentes.

No limiar do sono, no intervalo entre os estrondos, um ruído seco destacou-se. Virei-me, abri os olhos na penumbra e escutei. O silêncio se prolongou, até que, inquestionável, o som retornou, batidas. Golpes secos na porta, como ossos antigos a ecoar na madeira, espaçados por uma pausa que denotava uma paciência ancestral. Não havia relógios que marcassem a hora, mas a escuridão me dizia ser alta madrugada.

Acendi uma vela e desci as escadas rangentes da casa eterna cobrindo as espaldas com o cobertor. Não estava com medo, curioso talvez, mas por alguma razão não temia o que chegava. Pousei a vela e a caixa de fósforos em uma mesinha e abri a porta que gemeu, sofrendo em suas dobradiças teimosas. Sem pedir permissão, a escuridão veio de fora e inundou o mundo. Uma trovoada desenhou, por um instante, o contorno de um visitante silencioso à minha porta.

Alguém grande, envolto em um cheiro de tabaco e suor, usando um chapéu. Ele ergueu um cigarro preto de palha, apagado. Compreendi. Risquei o fósforo, e a luz violou a noite. A chama amarelada colidiu com aquele rosto de couro queimado de sol, desenhando sulcos eternos em um contraste melancólico. Era um velho senhor, cuja idade não consegui definir, parecia ter vivido a soma da vida de todos que já conheci. Aproximei a chama da ponta de seu cigarro. Ele então me fitou, debaixo do chapéu encharcado, com olhos de fogo. Lentamente, abriu um semisorriso que parecia mostrar que sabia mais de mim do que eu mesmo e congelou meu tempo.

Num instante, uma torrente de lembranças invadiu-me: o pôr do sol às 22h30 em Finisterra, aquele mesmo que aplaudi em São Thomé das Letras e vi nascer a quilômetros de qualquer alma viva, no topo do Pico da Bandeira, onde chorei em gargalhadas delirantes, uivando para o mar de nuvens que cobria a imensa ausência de qualquer pessoa. Vi-me vagueando perdido com uma garrafa de vinho na mão, pelas praias de Tenerife, alheio ao rumo de casa. Lembrei das viagens que fiz de carro, moto, bicicleta, ônibus, a pé, de barco, de carona, tanto no banco quanto na carroceria de caminhão. De um concerto de música clássica dentro do Castelo de Praga. Do som da gaita tocada acampado no topo do Morro da Baleia, na Chapada dos Veadeiros, e na Serra do Cipó. Do mergulho nas águas geladas das cachoeiras do Caraça. Das curvas sinuosas até o fim da Carretera Austral. Das orelhas queimadas pelo vento frio no Cebreiro e do sal no nariz nas Ilhas Ballestas. Da noite em que dormi no topo de uma cachoeira inexplorada, apenas com um saco de dormir sob o protesto de revoadas de andorinhas, sendo acordado por uma lua tão luminosa quanto o sol. Do andar à esmo no Salar de Uyuni, onde morri de frio, olhando o céu mais estrelado que já vi no deserto. Das salsichas no centro de La Paz, do churrasquinho aos pés de Machu Picchu, do sobá em Campo Grande, do pulmão de vaca em Bogotá e do ceviche em Lima, tudo degustado em barracas de rua, meu ritual de verdadeira descoberta. Do café da manhã gratuito para peregrinos em Santiago de Compostela. Da missa gregoriana numa igreja semissubterrânea em Vega de Valcarce, e do descanso em conventos milenares sob tetos de antigas igrejas. Do banheiro a céu aberto com vista para o topo do Monte Roraima, da travessia da Venezuela onde quase não consegui voltar de Isla Margarita. Das comidas mais estranhas e deliciosas, entranhas preparadas num típico churrasco argentino em Buenos Aires, cabeça de cordeiro em Cajatambo e os tradicionais calçots catalães num aniversário nas montanhas mágicas que cercam Barcelona e que escondem antigas igrejas e mosteiros onde andei à noite em campos de bruxas e colhi aspargos selvagens em campos de alecrim. Da escorregadela no gelo e neve para chegar a uma lagoa belíssima e mirar de perto o cume do Cerro Castillo, e da trilha de Huayhuash, na Cordilheira Branca, sem guia, carregando todo o meu equipamento. Da chuva forte ao desembarcar em Cabo Polônio e do blues em Punta del Diablo. Da travessia de 200 km de praias desertas, tomando águas insalubres até chegar à fronteira do Uruguai, onde dormi em faróis abandonados, um deles onde o guarda travava uma luta diária e inglória contra a areia que tomava tudo. Dos dias passados num veleiro, subindo a costa brasileira e entendendo, finalmente, a profundidade que significa a cor azul-marinho.

E quando a última imagem se dissipou, deixando apenas um eco de azul no fundo dos olhos, voltei a mim. A vela ainda tremulava. O velho ainda estava ali. Com uma nostalgia imensa, voltei a fitar aqueles olhos e aquele sorriso. Era isso. Em seu rosto estava claro que ele sabia de tudo, de tudo aquilo e muito mais. Levou o indicador à aba do chapéu num gesto breve de anuência, agradecendo. E partiu. Olhei enquanto ele era engolido pela escuridão, o cigarro protegido pela aba do chapéu, e pensei em nunca mais fechar aquela porta.