Naquela terra distante o sol demorava em sua revolução, rolava pela abóbada celeste cheio de preguiça. Quando a pino, estagnava e todos juravam que, se não houvesse um mínimo impulso decorrente da inércia, voltaria a resvalar pelo lado que tinha vindo e acabaria se pondo no exato lugar em que tinha nascido. Ali existia um menino. Este menino gostava de ficar em cima de uma grande árvore velha e seca que existia perto de sua casa, quase no meio do vale. Ele ficava lá, observando por horas, perscrutava com tanta intensidade aquele céu azul enorme que só existe nas nossas lembranças de infância que chegava a ficar tonto. Seus olhinhos frenéticos percorriam todo horizonte, atento as montanhas que rasgavam o manto azul sem cerimônia.
No inverno as nuvens agrupadas formavam uma única e enorme massa cinzenta que cobria o céu inteiro. Elas eram aquosas e enchiam o firmamento qual uma taça invertida, imergindo os cumes e grande parte das montanhas. Não que o menino não gostasse, mas não eram essas que esperava. Essas eram ralas feito fumaça, apenas envolviam as montanhas, enfeitavam-nas com gotas brilhantes para depois abandoná-las.
O que o menino esperava na árvore eram as nuvens do verão. Ah! Aquelas pequeninas e alvas, perdidas no céu imenso, essas sim eram densas o suficiente. Ele as acompanhava pelo trajeto que o vento impunha ditatorialmente com o coraçãozinho batendo forte no peito. Normalmente nada acontecia e a pequena nuvem desaparecia, levada para longe, por terras estranhas que o menino ficava a imaginar. Talvez fossem em direção à outros meninos que, como ele, gostavam de pastorear as nuvens.
Vez ou outra, numa trajetória infeliz, uma nuvem encostava nos escarpados montes e ficava presa nas rochas pontiagudas. Se emaranhava de tal forma que nenhum vento dali conseguia tirá-la e, se não fosse o menino, só se desmancharia em água quando o mesmo acontecesse a muitas nuvenzinhas e, condensadas, tivessem tamanho suficiente para proporcionar a vazão.
Essa era a realização do menino, ele pulava da árvore e corria em direção a nuvem solitária.Corria por distâncias consideráveis e ladeiras íngremes, chegava exausto e entrava naquela imensidão branca que amenizava toda luz e ruído. Era um silêncio de todos os sentidos que inundava sua alma. Ele aproveitava por alguns minutos aquela paz tão esperada até começar a pular e agitar os bracinhos cada vez mais rapidamente. Empurrava a nuvem para todos os lados até que ela conseguisse se soltar e seguir sua viagem.
Com o tempo, tornou-se habilidoso. Identificava facilmente o ponto exato onde deveria ficar no meio da nuvem, o quanto deveria saltar, para onde e como deveria mexer os braços. Percebia com facilidade as nuvens que descreveriam trajetórias trágicas e antecipava-se, conseguindo chegar antes do choque. Afastava-as das ameaçadoras pontas dos rochedos. Cada vez pulava mais alto para alcançar nuvens que ainda estavam longe do chão. Às vezes, como o pulo era demorado, as nuvens o carregavam por certa distância, pousando-o longe do ponto de partida.
De tão alto que aprendera a pular, seu pequeno vulto investindo contra o céu podia ser visto das cidades vizinhas, tornando-se distração constante para os cidadãos que, nas horas de repouso, gostavam de observar aquele menino brincar com as nuvens.
Num belo dia, cheio de nuvenzinhas arredias, o povo ria das peripécias do menino para dar conta de todas as desgarradas, quando, ao fim de um salto fabuloso, ele não desceu mais. Ficaram olhando para o céu por muito tempo, mas não houve sinal do menino. Provavelmente foi carregado, ou resolveu montar numa nuvem mais robusta para conhecer os lugares que apenas passavam em sua cabecinha de menino. Não temos como saber.
Não me espantaria se ele acabasse aparecendo por aí. Aí mesmo, onde você está lendo estas palavras, devolvido à terra junto com uma chuva de verão, e começasse a pastorear suas nuvens.
Um comentário:
Este conto está entre os mais bonitos que encontrei até agora. Gostei demais, os quadros são lindos e a poesia contida é espetacular. Parabéns!
Abraços,
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